Publiquei no Jeriel

O GOSTO E A QUASE IMPOSSIBILIDADE DE DEGUSTAR

Por Breno Raigorodsky

Videiras no Minho

Sabe como é, este artigo começou a ser escrito no período mais preguiçoso da vida, um pouco antes do Natal e um pouco depois do fim do ano, quando os dias parecem demorar mais para começar e tendem a acabar mais cedo – não por conta dos movimentos que a terra faz – mas da dificuldade que se tem para pensar sobre qualquer obrigação.

Vencendo a vontade de passar os dias a dormir, escrevi este artigo inteiro num fôlego só, mostrando que quem gosta de vinho tinto entrado em anos, jamais vai gostar de vinho jovenzinho, fermentando na garrafa, borbulhando de mansinho por uns meses ainda, como é típico em casos como os chamados “vinhos verdes” (porque não maduros) do norte do Minho português.

Acabei de escrever super satisfeito com o resultado e só não mandei para publicar por puro pudor revisor, que tantas vezes me falta, motivo de crítica constante de meus melhores amigos e editores.

Quando li na manhã seguinte me dei conta que, ao contrário da primeira impressão, estava horrível, que eu não tinha defendido tudo que queria, que tinha que dar tantas outras explicações técnicas, que fugia do escopo. Tentei mais um dia e meio, entre cochilos de preguiça e almoços e jantares… Deletei.

Fui para um caminho que me persegue desde que andei lendo na diagonal uns textos de faculdade que perfeitamente cabiam no discurso do gosto – eram do antropólogo Levis Straus. Um falava do ritmo harmônico na relação do cru e o cozido, dando civilidade ao cozido, mostrando que a passagem de um para o outro era um marco civilizatório que tirava o homem do reino animal e lhe dava uma outra grandeza. O outro falava do incesto cruzado de outros povos que não o da civilização ocidental, que jogava no lixo a tese da naturalidade dos nossos incestos que impedem relação sexual entre pais e filhos, obrigando a reflexão profunda sobre o que é dado como natural e instintivo, e o que é cultural.

O reescrito era interessante mas ficou pretensioso, afetado, impublicável, acho até que pior do que o primeiro. Joguei fora e – mãos a obra – escrevi tudo de novo.

Apelei finalmente para uma experiência que merecia ser relatada, apesar de não saber onde e quando relatá-la, porque não envolvia vinho e atualmente não escrevo em lugar algum sobre comida, como fiz por tantos anos, em publicações diversas, como as extintas Gazeta Mercantil e Look, assim como nas revistas Menú e Hebraica, além de blogs como o Basílico do Josimar Melo.

Mais forte do que eu, a experiência queria se mesclar ao vinho, no sentido de provar como era difícil aceitar o novo, o desconhecido. Tratava-se de um jantar mal sucedido pela expectativa criada em torno do nome do prato a ser consumido – “paella”!

Paella

Éramos quatro adoradores do prato espanhol, tínhamos altíssima quilometragem do prato, sabíamos fazê-lo como ninguém, ensinados que fomos pelo grande Edmond – com quem convivemos por um longo verão – lutier de harpas medievais em suas horas vagas, quando não estava fazendo paella.

No restaurante já devidamente testado com outros pratos, pois tínhamos feito uma incursão à casa semana anterior, fomos servidos em porções individuais, portanto sem a paelleira no meio da mesa, um prato sem o característico gosto de azeite deliciosamente condimentado com alho e pimentão. O gosto e a aparência traiam a expectativa de modo irritantemente surpreendente.

E no entanto lá estava o prato, com seus camarões, mexilhões e lulas macias no ponto certo, delicadamente temperado com açafrão, sal e pó de pimentão, tudo corretamente construído sobre um arroz bem resistente e cozido, suficientemente equilibrado.

Um prato que mereceu imediatamente críticas intolerantes por parte de todos, chegando ao ponto quase não ser tocado por alguns de nós, mesmo depois de acrescentado pimenta e azeite cru.

Um prato que, para nosso espanto, era digno de elogios regulares por quem conhecia a paella valenciana feita por e para valencianos, e não aquele produto que havia se universalizado com nome “paella”, servido em restaurantes para turistas em qualquer restaurante espanhol, em qualquer canto do mundo, inclusive na Espanha.

Mas o que isso tinha a ver com o meu compromisso de escrever sobre vinho? Em que as senhoras e os senhores iam assimilar com esta historia, se seu objetivo era fundamentalmente assimilar melhor o mundo do vinho?

Adiantaria dizer que o relato da paella servia para mostrar claramente a força que a expectativa sobre o gosto tem para que resistamos a experiências novas, seja com a comida, seja com a estética?

Fui assim sendo vencido pela pressa de entregar e publicar, afinal já adentrávamos na segunda semana de janeiro e nada de artigo.

Antiga barrica de carvalho

Mas descartei e pensei em escrever sobre o gosto do carvalho no vinho,constituído antes mesmo do Império Romano, pois o vinho em barricas – de carvalho – acompanhava o exército conquistador em terras subjugadas e evitava, em determinada medida, o envenenamento da água em meio a povos ainda por demais revoltados com a invasão sofrida, estratagema muitas vezes usado com sucesso na historia da humanidade. O vinho que acompanhava as tropas romanas substituía a água, tornando inútil tal golpe.

Pois bem, o vinho com carvalho que o transportava tornou-se assim uma coisa única. O carvalho estava lá, aplicava-se obedientemente à tarefa de se fazer barricas de transporte e guarda, não tinha sido escolhido por um conselho de degustadores que decidiram ser ele o melhor fruto da floresta para acalmar os taninos indomáveis de determinadas uvas, misturar-se entre seus dotes aromáticos e paliativos, dar-lhe toques de elegância e complexidade.

Passado tanto tempo, bem que podia ser testado em nome da diversidade outras tantas madeiras de lei, com os mesmos atributos práticos mas com seus próprios sabores, como se faz, por exemplo, com a cachaça que se mistura a amburana, ao amendoim e ao carvalho.

Achei que tinha pouca informação sobre o assunto, apesar de achá-lo bastante interessante, intuía que o consumidor tanto rejeitava qualquer outra madeira, que a agroindústria do vinho, covarde por excelência, não ousava tirar o carvalho do trono, nem por um momento.

Enfim, já havia escrito mais de 15 mil caracteres, entre 9 revisões, desde o dia 21 de dezembro quando iniciei a primeira versão, com um título próximo deste que está no alto da página. Achei que bastava, achei que vocês iam no mínimo me dar um voto de confiança por conta das circunstâncias e da curiosidade que o título cria, e iam ler com tolerância até aqui. Estava certo?

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