O mundo inteiro importa e você nem sabe quem é

Escrevi este artigo há uns seis anos atrás: tenho preguiça de refaz-lo integralmente, mas proponho ao menos uma boa integração com vinho – começaria por um jerez fino ou um bom e seco espumante. Continuaria pelo caminho de um chablis, um vinho do Douro como este que apresentei, 100% Rabigato, o Quinta da Mieira. E adoraria ver como se comporta um tinto ligeiro e servido à temperatura de branco como um primitivo de Salento – pouco alcóolico – ou um grignolino como este que o Juscelino tem servido no Piselli.

Um sapo barbudo está fazendo muito pelo Brasil. Traz divisas para o país como nenhum outro, compete em termos de qualidade com os similares do mundo inteiro é temido e respeitado pelos adversários.

Não, não é engano, este é um artigo sobre gastronomia, não sobre política e trata do

Peixe-Sapo, também conhecido como Peixe Diabo, Diabo-Marinho, Peixe-Lanterna, Tamboril português, o Baudroie francês, a Rana Pescatrice, ou Rospo italianos, o

Monkfish ou Angler ingleses, o Zeeduivel holandês e o Rape espanhol.

Com ele, os chefs do mundo inteiro fazem maravilhas, pois sua carne tenra, firme e adocicada – o caminho do meio entre a carne do cherne e a da lagosta – é fácil de trabalhar e fácil de gostar, tanto que encontrei, numa rápida procura na internet, mais de 150 receitas com ele. Mas a melhor forma de prepará-lo deve ser aquelas mais simples, como a de um crustáceo apenas cozido ou grelhado, regado com um molho simples, tendo como base, por exemplo, beurre d’escargot (manteiga, alho e salsinha batidos).

Inteiro, sua aparência é a pior possível, como pude descobrir quando o meu peixeiro o trouxe pela primeira vez, aliás, a meu pedido, pois sua produção é totalmente voltada para o exterior; nem quem trabalha com pescado conhece muito por aqui. No entanto, desfeito de sua cabeça e pele, resta um corpo e cauda cilíndricos nada assustadores, muito pelo contrário. Trata-se de uma carne extremamente delicada, magra como o linguado, contendo vitaminas do grupo B e fósforo, magnésio e ferro, benéficos ao organismo. Ou seja, não é tão feio quanto parece.

Peixe lanterna

O Peixe-Sapo é aquele monstro abissal que quase come o Pai Palhaço do Nemo e a sua companheira Noemi, no delicioso (eu e mais milhões de pais e filhos gostaram…) desenho animado da Pixar, Procurando Nemo. É aquele peixe com uma bocarra enorme que, com sua artimanha de acender uma atraente luzinha, faz as vítimas chegarem curiosas, bem pertinho dele, para engoli-las, simplesmente pelo efeito escorregador aquático que causa ao abrir a mandíbula inferior, enorme e desproporcional para o seu corpo.

Este seu ilustre desconhecido, que leva o nome científico de Lophius gastrophysus, é o responsável direto pela defesa das 200 milhas de mar que banham o nosso País, muito mais do que as lagostas ou os camarões do Ceará, que os franceses insistiam em nos surrupiar. Muito mais do todos aqueles peixes bonitinhos que você só compra filetado, livre de toda e qualquer espinha, para farinhar e fritar, a única forma que os seus filhos aceitam comer peixe.

Ele é parente próximo de algo como 350 espécies conhecidas, todas muito feias, para os nossos olhos acostumados a indivíduos que nadam a uma profundidade muito inferior aos 60 metros, no mínimo.

Por causa dele, os navios-indústria japoneses invadiam nossas águas na maior cara de pau, pescando com redes predatórias toneladas e toneladas de machos, fêmeas e filhotes, sem distinção.

As limitações são de proteção ao meio ambiente, mas – muito mais do que as simpáticas tartarugas e baleias, que têm defensores intransigentes entre a elite de todos os países do mundo – de interesse imediatamente econômico, visto que ele chega a render para os cofres do país US$ 21,7 milhões em 2001, tornando-se o item mais valioso da pesca no País.

Não só isso, ele é protegido de extinção desde 2002, pelas autoridades costeiras, que limitaram sua pesca a um limite de 2500 toneladas, com tamanhos superiores a 50 cm! É a primeira vez no Brasil, que a pescaria de uma espécie foi disciplinada através do instrumento de cota máxima, uma atitude mais sofisticada de preservação.

Para 4 pessoas
Ingredientes :
875 g do Peixe Diabo limpo (apenas a parte próxima do rabo)
Farinha para polvilhar

2 colheres de sopa de azeite
Raspa de limão e suco de um limão amarelo

¹/² taça de vinho branco seco
2 colheres de salsinha picada
sal e pimenta

Preparação :
1. Retire as membranas e carne escura
.
Retire o osso central, cortando a carne no sentido vertical até tocar no osso. Progrida cuidadosamente ao longo do osso. Faça o mesmo do outro lado, permitindo a retirada do osso inteiro.
Corte em medalhões, salgue, apimente e passe levemente na farinha

  1. Aqueça o azeite numa frigideira, frite os medalhões até que dourem. Reserve

  2. Despeje na frigideira a raspa e o suco do limão e faça o vinho ferver rapidamente para livrar o álcool.

  3. Baixe o fogo, remeta os medalhões no fogo por 4 minutos.

  4. Incorpore a salsinha e corrija o sal e a pimenta.

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