Mais um ponto para o vinho brasileiro

img_0435≈Degustadores de boa litragem, vinhos brasileiros em profusão, bom ambiente, boa comida. Do que, você que participou do encontro na Wine Soul e depois no restaurante Pichi, pode se queixar?

Comecemos pelo Osaka Rosé 2015 Merlot, Cabernet Franc da Perini, com seus       12% de álcool, colorido de rosé intenso, perfumado de cereja e framboesa, com gosto ácido, firme, macho, sem perder a maciez. Um bom achado, vinho que transita com facilidade entre a piscina, as entradas mais complexas de gosto como um salpicão de frango, maçã, salsão etc. até os sushis (antes e depois do wasabi).

Beleza o segundo vinho, mais um ponto para o produtor paulista Guaspari, o Vale da Pedra Sauvignon Blanc 2015, do alto dos seus  14% de álcool, vestido de amarelo esverdeado, apresentando aromas intensos e complexos de frutas cítricas, frutas de polpa branca e um leve toque floral, mas surpreendentemente equilibrado, apesar de todo aquele álcool, o que se confirma na boca, equilibrado e persistente. Um pouco de alho no peixe, por favor, me traz um leitão pururuca, quero um ravioli de ricota com molho de tomate ralo! Para alguns dos mais de 15 participantes entre a primeira e a segunda etapa, o melhor vinho da amostra (e olhe que ele é o segundo branco do Guaspari, sendo que o primeiro sauvignon blanc é um Graves digno de ganhar de muito vinho francês)

Quem diria que depois desta beleza a Salton ia apresentar um Paradoxo Chardonnay sem medo de correr para o abraço? Com 13,5% de álcool, amarelo com reflexos esverdeados, com nariz de baunilha, cítrico, pera e leveduras, com bom corpinho que quase joga você para um vinho galante australiano, este vinho voltado para a venda direta e única para restaurantes, rivalizou com o Vale de Pedra, mesmo custando a metade do preço. Quem sabe aqui, exija um pouco mais de estrutura, como demonstrou no couvert do Pichi, ao acompanhar os grissines feitos na casa, ao harmonizar com um capelete solitário e manter-se altivo na hora da polenta mole e gorgonzola, um colírio para os olhos um bálsamo para a boca.

saltonparadoxopinotMenos bem sucedido na primeira parte o seu irmão Pinot Noir, o Paradoxo que ficou nos últimos lugares sem comida, mas que galgou boas posições a partir do momento que se viu diante da mesma polenta. Brilhou e brilharia diante de tantos outros, mostrando que temos espaço para Pinots mais novomundistas, como os Aurora de Pinto Bandeira, como os vinhos da Lidio Carraro e até da Pericó. Com 13,5% e parcialmente em madeira francesa por 12 meses, mesclou estrutura e frescor, numa boa.

Depois dele o Red, o vinho de entrada da Routhier&Darricarrere, um vinho um pouco abaixo da turma, que era parruda mesmo. Se estivesse acompanhado de vinhos do seu porte teria se saído melhor, mas o que vinha depois dele era muita areia para o seu caminhãozinho e ele não conseguiu conquistar a grande maioria do pessoal com seu corpo peso galo, porque com ele se iniciava a apresentação dos pesos médios-pesados. Acho que faltou um pouco de álcool, seus 12,5% se mostraram frágeis diante dos outros, como costuma acontecer quando você põe um vinho mais ligeiro no meio de outros mais parrudos. Erro nosso, não do vinho.

Quase o mesmo se pode dizer para o Qu4tro da Perini, um elegante mas um pouco curto assemblage de ancellotta, cabernet sauvignon, merlot e tannat, com apenas 12% de álcool e na teoria suficientes 9 meses de barrica francesa. A uva italiana precisava de maior sustento do cabernet no nariz e na boca, precisava de maior apoio do tanta no corpo. Ele ficou um pouco fora de lugar. Mais uma vez, por mais que se mostrasse gastronômico, não seria a escolha da grande maioria para acompanhar a tal polenta e muito menos para fazer par com o  raviole de stracotto al burro e sálvia que ocupou a mesa logo depois.

É que o Salamanca de Jarau, o vinho mais importante da Routhier & Darricarrère mostrou na taça porque frequenta os grandes DOM, Fasano e Cia da vida e é um dos favoritos de gente como a Daniela Bravin. Este sim entrega o que promete, mostrando-se a altura de vinhos que seguem a cartilha clássica dos cabernet sauvignon pensados desde Bordeaux e não desde a California. Aqui, seus 13%, seus 12 meses de madeira de terceiro e quarto uso, suas leveduras nativas provam que é possível ainda fazer um vinho old fashion e agradar multidões (?!). Para muitos, o melhor vinho da noitada.

Da mesma Campanha, mas a centenas de quilômetros de distância na proposta, veio o Bueno Paralelo 31, que, para fazer um paralelo frouxo, vinha mais para surfar na Califórnia do que pegar o navio em direção ao Canal da Mancha. 13,5%, 12 meses de madeira nova francesa. Bonito, muito frutado e alcoólico não fez feio, mas também não causou suspiros.

Aí veio o Máximo Boschi 2006, quem diria. Poucos dos presentes conhecia este vinho, pois a Máximo é para poucos, mesmo com seu produto mais famoso, o Especiali Brut, o único espumante que já vem com cor de mijo como se fosse – que pretensão! – um Bollinger Special Cuvée. Pedindo respeito com os seus 10 anos de vida, com sua linda malolática completa, 13% de álcool e 15 meses de madeira e mais 30 meses em garrafa antes de ir à luta, ele causou excelente impressão, com sua maturidade, onde não há taninos briguentos, que de tanto gritar pelos anos de madeira e garrafa, tornaram-se veludo (blue).

O mais badalado dos vinhos brasileiros dos últimos tempos abriu a última temporada, contra o mais badalado dos menos últimos e contra um completo desconhecido que acaba de sair de casa: Vista do Chá Guaspari, Merlot Terroir Miolo, Lendas dos Pampas Guatambu.
Foi assim que acabou a noite. O Lendas, surpreendendo os outros dois e ficando bem perto deles. O Merlot Terroir 2012 veio com toda a sua importância, que desde 2005 veio se diferenciando e fazendo historia por ter sido eleito o melhor merlot do mundo até US50, em 2005 em Londres, na Decanter, com a presença de um sem número de Master Of Wines no juri. O Guaspari por ser cantado em verso e prosa (e antipaticamente pela própria empresa, que insiste em passar a imagem de que o vinho brasileiro é divido em antes e depois dele) como o melhor que já se faz para baixo dos trópicos.

De fato, o Vista do Chá 2014 é um vinho importante, está voltado para Hermitage, quer ser um Syrah para que você chame de seu. É bom mesmo, mostrou que é bom principalmente sem a comida, o que quebrou um pouco minhas expectativas, eu que o conheci disputando espaço com seu irmão mais novomundista, a outra Vista. É um Syrah invernal, com 14% de álcool 18 meses de carvalho francês. Ainda jovem, vai melhorar com o tempo, é bem provável que ao atingir seus 10 anos de garrafa bem guardado torne-se o melhor que um vinho pode ser. Veremos.

O Merlot Terroir, que conheci custando menos de R$60,00, mostrou sim a que veio e se o Vista é Rhone alto, ele é Pomerol, referencia clara ao estilo de vinificação e ao resultado contido, complexo, potente, longo, mas igualmente elegante, principalmente na boca.

imagesMerece um parágrafo mais generoso, o Tannat que veio de Dom Pedrito, este Lenda dos Pampas Tannat 2015, pedindo um abre-alas, um olhar particular para si.Com 13 meses de madeira, com 14% de álcool, enfrentou seu medo os oponentes, em parte mostrou-se até mais gastronômico do que todos os pesados.

A nota triste – muitos vinhos deveriam estar ai. Os grandes da Miolo, da Valduga, da Pizzato, da Lidio Carraro, da Aurora, da Villa Francioni, o Dal Pizzol, o Amima Vinum do Boscato, o Decima, o vinho goiano, os novos mineiros, os Cordilheira de Santana e muitos outros que infelizmente não couberam nesta página virada.

Agora ficou mais uma vez evidente que temos bons produtos muito além dos espumantes.

 

 

 

 

 

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