Espanha, sem inventar moda

A Espanha tem trazido algumas novidades da hora, da passagem do milênio pra cá, depois que a Itália e a Austrália comandaram o novo, no Velho e no Novo Mundo. A Austrália com seu marketing, com seus cortes ousados (Cabernet Sauvignon+Syrah, quem diria?), abrindo caminho para todo tipo de brincadeira entre vinhos) e a Itália quebrando a fórceps as amarras das Denominações a partir dos Super-Toscanos.

Pé franco
Pé franco em Toro

Isso é injustiça para com o espírito novidadeiro de tantos produtores, até mesmo na Espanha de Penèdes, onde desde os anos 1970 – Gran Coronasportanto contemporâneos às novidades da Toscana – os vinhos da Torres, os Coronas já saiam com corte bordolês, surpreendendo os entendidos menos avisados, a ponto do Gran Coronas 1970 ter recebido notas apenas abaixo de um Lafite, na França, em 1979/80 e o Coronas 1970 ter ocupado o 7º lugar! Um sucesso enorme, embora menos barulhento que o Duelo de Paris, envolvendo os “franceses” da Califórnia.

E o que dizer de o espantoso Abadia Retuerta de Pascal Delbec, um outro Tempranillo/Cabernet Sauvignon que me fez criar uma entrevista imaginária, onde o enólogo responsável pelo Chateau Ausone respondia por sua paixão santemiliana, mesmo em Ribera del Duero. Na verdade, a Espanha não precisou de inovações para ser inventada, os Tondonia e os Vega Sicilia.

Mas, como muita inovação se criou em tantos lugares, muita produção se multiplicou, fazendo do vinho um dos mais rentáveis agro-negócios,  que nem sempre encontramos algo de verdadeiramente novo, a ponto de chamar a atenção pela inovação. O que queremos é ser surpreendidos por um novo que nos agrade na hora, sem ter que fazer muito esforço para nos convencer. Portanto, há de formar um mix entre novidade e conhecimento já digerido que permita o acolhimento.

O problema é que quase sempre esta mistura entre o novo e o conhecido nos leva a uma situação de dejà vue, uma coisa meio maçante que na economia do mercado pode ser traduzido por Commoditie ou Mais do Mesmo!

Legal é quando o novo é suficientemente interessante, quando o que se tem para mostrar se adapta a uma procura daquelas que você descobre que estava a fazer, quando a solução aparece. Mais legal ainda quando isso se dá quando o que impacta positivamente não custa mais do que se espera.

No mundo do vinho, acontece bastante, afinal produz-se com uvas e terroirs tão distintos, com um quantum de novidades tão aprazíveis mundo afora, que é fácil imaginar algo que dê certo, que não seja simplesmente mais um golpe do marketing do vinho, como tantos por aí.

Neste quesito, o mundo tem sempre o que inventar, não apenas e não principalmente os espanhóis.

Vinhos feitos por enólogos em conjunto, uma mostra de terroir, como o que se fez no Chile, envolvendo cinco enólogos e cinco enólogas da Tabali, da Errazuriz, da Undurraga, da De Martino da Laberinto etc. Reuniram-se todos para fazer um 5X20 masculino (cinco enólogos, cada qual responsável por 20% do vinho) e um 5X20 feminino elegendo a Syrah como uva mestre. Por que? Pra que? Será a Syrah a uva mais importante destas vinícolas? Até onde sei não são, pois a Cabernet Sauvignon, a Merlot e a Carmenèrre são responsáveis por alguns dos melhores vinhos do Chile feitos por estas casas… Então por que? Jogo de marketing, vontade de criar fatos novos, estar na mídia, revelar-se. Os vinhos ganharam importância, e o “M” feito pelos homens custa em média 98Euros, de acordo com a Wine Search5X20, o que em dinheiro brasileiro, daria um preço acima dos R$800,00, mais perto dos R$1500,00.

Alguns produtores da região nobre de Toro, Espanha, passaram a trabalhar com um corte de 80% Tinta de Toro (Tempranillo)+Garnacha, com um ano de madeiras francesa e americana, pós malolática induzida em madeira nova e anos e anos de guarda em garrafa, trazendo o essencial da madeira,
mas deixando prevalecer a uva e seus primários, como é o caso do Bodega Estancia di Piedra Crianza, um dos melhores vinhos que pude experimentar numa das últimas viagens a Espanha.

Para finalizar, mostro este Art In Vitro Tandem de Navarra, merlot/tempranillo, 14% de álcool, um vinho que está conquistando seu lugar comercial até no badalado Lavinia parisiense, ao mesmo tempo que recebe aplausos na Decanter inglesa.

Seu frescor está em descartar a madeira, mas não o longo descanso, pois depois de ser fermentado em aço, faz a malolática completa e 22 meses de afinamento em concreto.

O resultado é bonito de se ver, limpo, complexo e longo na boca, levemente floral no nariz. E o preço – o último dos sentidos organolépticos – está longe de doer.

 

 

 

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