Balancete incompleto 2019. Ou o samba do criolo quase doido.

O que mais curti no ano que passou foram os espumantes brasileiros.

Para falar sobre isso, peço desculpas antecipadas aos poucos que me leem, mas serei obrigado a citar um certo número de nomes, assim como peço igualmente desculpas aos que não citarei, muitas vezes por desorganização, esquecimento ou ignorância.

Sabe o que é?

Veio até o Steve Spürer, na babação de ovo da IBRAVIN, dizer que os brasileiros tinham tipicidade, eram leves, alegres e jovens como o povo deste país. Um papo nada novo, que confunde potencial com nicho de mercado. Aquela palhaçada promovida pela IBRAVIN de trazer um Super Star do mundo do vinho para avaliar os cavalos paraguaios do hemisfério sul contra os brasileiros, de estabelecer o que é bom e o que é ruim, antes mesmo de abrir a garrafa, está de longe superado.

Sim, podemos e devemos fazer os vinhos que são aceitos aqui e acolá, como as vinícolas estão fazendo quando pensam numa porta de entrada mais acessível aos mercados maduros e competitivos, como o dos EUA, da Alemanha e da Inglaterra. Nesta estratégia, vejo produtores trabalhando com seriedade, produzindo vinhos de boa aceitação entre os mais jovens, seguindo as lições que os australianos da Yellow Tail deram ao mundo todo.

Ou seja, traduzindo para quem não entendeu bem: Dizem os militantes da excelência atingida “vamos deixar estes caras concorrendo com os espumantes mais levinhos, enquanto reservamos o mercado mais nobre para os tradicionais de Champagne”.

Ou seja, façam por aqui um vinhozinho fácil de beber, atendam o mercado crescente, que dos grandes apreciadores ocupamo-nos nós, como sempre, desde que a Viúva conquistou a corte russa.

A verdade é que o mundo vem fazendo sombra às borbulhas de Don Perignon desde que os franceses foram ensinar catalão fazer espumante, nos idos de 1800 e bolinha, com as uvas locais. E a sombra não parou de crescer depois que apareceram os grandes italianos de Franciacorta e os grandes do Douro em Portugal.

“CHEGA DE CONCORRÊNCIA”, ouviu-se um grito lancinante desde a catedral de Reims, chega desta gente querendo tirar o que é nosso.

Enquanto ninguém se aventurava a fazer grandes incursões no espumante excepcional, que exige paciência e capital, que obriga uma aposta no futuro e no prestígio da casa que se aventura a isso, tudo bem.

Foto do Luiz Cola

Nove vez fora o Geisse, ninguém ia tão longe na autólise e na aposta, até onde sei, apesar de várias tímidas tentativas neste sentido, que estão em laboratório desde o início do milênio.

De repente temos ai vários produtores nadando de braçada nesta onda de produtos cujo perfil atende os mais exigentes, os maiores conhecedores…aqueles que compram produtos de primeira linha, não para ostentar com o rótulo, mas para fazer honras ao máximo que aquela composição permite.

Abrem espaço e servem de incentivo para produtores de grande qualidade como a Vallontano e a Angheben, só para citar duas com consagrada qualidade, que já fazem bons produtos ao método tradicional mas eventualmente sem condições financeiras de apostar tão alto.

Recupera a vontade de apostar numa Routhier&Darricarrere que tirou de linha seu Ancestral por falta de público, apesar de ter-se voltado para um incrível Red e um superior Província de São Pedro Natural Extra Brut…

Mas foi nos grandes espumantes que me agarrei.

Luiz Argenta Rosé Nature, o Azir Salton, O Nature Pizzato, o Biografia Brut Maximo Boschi e o Iride Miolo, defendem meu ponto de vista – reescrito à exaustão – que esta coisa de ter um espumante tipo brasileirinho, leve e solto, jovem e gostozinho é conversa pra boi dormir.

É defesa de território, quando se trata principalmente de decisão comercial: será que o mercado consegue absorver meus vinhos mais caros ou não?

A Routhier&Darricarrere fez um a la anciene e decidiu que o mercado não pagava, desistiu, ao menos por enquanto.

Quem sabe produtos como os citado acima + os Valduga – particularmente este Sua Lie que encanta a todos – o X Decima, Vallontano e os Estrelas do Brasil incentive alguns produtores a fazer mais e mais produtos que procurem a excelência, por que não?

Vinhos de uvas colhidas na hora certa, vinhos que suportam longos processos de sobre-borras e tecnologia e enologia suficientes para manter – ao longo do processo – toda a química sobre controle, têm dado muito certo, mesmo fora da supervisão de nosso mestre mais consagrado, seu Mario Geisse, que, não contente em fazer seus grandes borbulhantes, andou prestando ótima assessoria por ai, incluindo o Perini, que assim entrou na categoria dos bons e baratos no género.

E mais, bem mais: no degrau mais baixo da escada da excelência, a saber os produtos com menos tempo de sobre-borras e sem ainda a necessária relação de acidez e maciez para construir um enorme Nature.

Honra a Chandon que continuou num lugar de destaque entre os Charmat, a Perini, a Aurora de Pinto Bandeira, a Peterlongo – que revigorou-se – a Aliança, o Zanoto, o Bueno, a Pericò, a Villa Francioni, O .Nero da Domno…honra até as duas uvas mais brasileiras que italianas, a Riesling Itálica e a Moscatel, que atingem a maturidade, depois de um longo ciclo de ajuste de qualidade.

Ou melhor, o que mais curti foram os brancos brasileiros… ou quem sabe os tintos brasileiros.

OS TRANQUILOS DO ANO

Moral da historia, o que mais curti foram principalmente os brasileiros em geral, brancos e tintos tranquilos, brancos e rosés espumantes.

Salamanca do Jarau, o melhor cabernet sauvignon; Maria, Maria, o melhor tinto de inverno, Sauvignon Blanc Guaspari; o branco mais Bordeaux que se faz no continente; Semillon Pizzato, o mais surpreendente dos vinhos especulativos dos últimos anos; os primeurs da Miolo, um melhor que o outro. Os Luiz Argenta, que justificaram o design, saindo da armadilha das grandes garrafas para se mostrar uma vinícola de grande respeito. Os Valduga de primeira seguem a linha aberta pelo ícone Storia, que junto com o Lote 43 formaram a linha de frente da nova enologia brasileira. O Concentus Pizzato continuou se afirmando como o melhor corte brasileiro. 
Os melhores vinhos tintos continuaram sendo, agora em novas safras, mostrando grande consistência produtiva, dando confiabilidade importante a si, o Lote 43, o Terroir Miolo e o DNA99 Pizzato, por mais que tenham se apresentado tantos vinhos de respeito.

O Serena, Pinot Noir biodinâmico não chegou a me empolgar, talvez porque cria-se tal expectativa quando um vinho custa tão caro assim, que qualquer coisinha resvala, a exigência fica alta demais. Quem sabe os anos e as próximas safras me atinjam com o raio da adoração, como ocorre já com outros tantos amigos e entendidos, que estenderam o tapete vermelho para ele e lhe deram o trono do que há de melhor que se faz pelo Brasil. O Syrah Alma Única merece estar na lista. Villagio Bassetti, Pinot Noir idem.

Enquanto os vinhos (bem) acima dos R$150,00 pululam no mercado - geralmente pequenas produções vendidas particularmente para os restaurantes mais procurados pelos estrangeiros no Brasil, que querem e podem experimentar o que há de melhor feito por aqui - os abaixo dos R$70,00 brasileiros cresceram muito, os brancos frescos são bons, mesmo os chardonnay que até então andavam banhados em madeira, à procura de um caminho que exige muito maior investimento. Um bom exemplo? O Pinto Bandeira Aurora. Outro exemplo? A linha Fausto, com a minha preferência especial ao Rosé de Merlot. Mais alguns? A linha Estância dos Guatambu de Dom Pedrito, a linha Paradoxo da Salton, os blends da Sta Rita dos vinhos de altitude.

Os Pinot Noir começaram a por as mangas de fora, tem um ou outro que não segue mais o padrão esdrúxulo do suquinho de uva com gostinho de fruta vermelha, que se costuma fazer com esta nobre cepa, que bem podia ser feita com o mais simples e jovem Gamay. 

Finalmente os Cabernet Franc, uma avalanche, alguns muito bons, foram a boa tendência. Esta uva, responsável por boa parte dos vinhos do Loire e do lado direito de Bordeaux, já foi importante no Brasil, pode ter sido a primeira grande vitivinífera que tivemos na região que se consolidou como o Vale dos Vinhedos. Decaiu, em parte por conta da fragilidade perante fungos e más escolhas de clones, em parte porque acostumou-se a fazer um vinho pouco tânico, com alta acidez e juventude. A tendência atual é fazer vinhos bem mais concentrados e de guarda, com bons investimentos.

Chama a atenção produtos como o Parcela Única Perini e o Philosofia do Goes de São Roque, mas não podemos esquecer que o Aurora Pequenas Partilhas jamais esmoreceu, está firme e rijo desde o primeiro lançamento!

É isso aí, que a década que se inicia traga melhores alternativas políticas para o mundo e melhores e mais acessíveis vinhos para todos.

Que as insidiosas burrices comercial e fiscal sejam expelidas para o ralo desde as latrinas dos burocratas de plantão em Brasília, que o vinho finalmente seja taxado como alimento e não como artigo de luxo!

Um comentário em “Balancete incompleto 2019. Ou o samba do criolo quase doido.

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