O que queremos do vinho brasileiro

O ESTADO DA ARTE

Na última quarta feira, um grupo de degustadores que me inclui discutiu os rumos do vinho no Brasil. Entre outras características, cruzou-se, como se deve, potencial de produção em quRouthierantidade e qualidade com o desejo de consumir do mercado brasileiro.

Muito já se falou sobre isso tudo, é até meio maçante recuperar. Evidentemente nosso consumo é baixo, pode crescer e cresceu, a reparar no número de produtos que o mercado apresenta hoje e/ou a centimetragem que o vinho ocupa nos supermercados e lojas especializadas, comparados com o que se tinha 10 anos atrás.

Por duas rodadas, avaliamos alguns dos melhores tintos que se faz no Brasil. Na terceira, juntamos alguns dos sauvignon blanc de procedências e estilos totalmente diferentes mais alguns dos mais prestigiados chardonnay atuais, juntamos com um Riesling da Casa Marin e o Catena Alta. O resultado foi parecido com o que conseguimos no Wine In, em 2013, quando os brasileiros se saíram tão bem – ou até melhor – que os chilenos e argentinos.
A EXCELÊNCIA

O vinho, ah, o vinho. Quem poderia imaginar na virada do milênio que teríamos hoje estes produtos de boa a ótima qualidade vindos do centro do Brasil, gente fazendo coisa boa ou ótima na fronteira com o Uruguai? Quem poderia imaginar que o Vale São Francisco tem o potencial que tem ainda a realizar? Quem diria que os chamados Vinhos de Altitude de Sta Catarina e os do Paraná estariam dando bons passos em direção a excelência? Quem diria que em torno do Vale dos Vinhedos, Flores da Cunha, Nova Pádua, Pinto Bandeira, Caxias do Sul etc. estaríamos migrando para vinhos vitiviníferos, sem rifar os consumidores de vinhos à base de uva americana, sem deixar de incrementar a produção do suco de uva?

MariaMaria
Ou seja, não se trata mais – acredito e eu e mais uma quantidade crescente de consumidores, analistas, formadores de opinião, especialistas em geral, brasileiros ou não – de questionar o potencial do país em produzir um vinho de qualidade internacional.

Era dos ventosA IDENTIDADE
Trata-se de discutir até onde ele pode ir em qualidade, até onde ele pode ganhar um rótulo próprio e único, como foi – uma vez – o Malbec para a Argentina, o Zifandel para a Califórnia, o Pinotage para a África do Sul e outros.

Mais uma vez, o cruzamento entre potencial, preferencias naturais, condições concretas, enologia e investimento devem se cruzar com as vontades do mercado.

StoriaA uva Merlot, campeã dos grandes de Pomerol, presença obrigatória em quase toda Bordeaux, seja no Medoc, seja em St Emilion, deu-se bem na região mais concentrada de produção, o Vale dos Vinhedos.

De lá saíram alguns campeões brasileiros como o Lote 43 e o o Merlot Terroir da Miolo, o DNA99 da Pizzato, o Storia Valduga e outros. merlot LA

O GOSTO, O BOLSO, A ESCALA

Muito sempre se disse sobre o gosto brasileiro – ah, façamos um vinho mais docinho, que este é o gosto brasileiro. Puro mito, eu acho. Vinho docinho é a expressão da falta de cultura de vinho, parece ser o vinho de entrada para todo individuo desacostumado com o complexo gosto do vinho. Angheben PinotSe o ácido avinagrado aparece em primeiro lugar, a reprovação é grande. Se o fim do gole não é redondo e macio, a reprovação é igualmente grande.

Comendador Villa FrancioniPara entrar no mundo do vinho, o mercado, seguindo os passos dos produtores como a gigante Gallo norteamericana, que implantou um gosto que provocasse menos reações negativas, mais próximo do grande dulçor dos sucos de fruta e mesmo de refrigerantes, pois o novo consumidor norteamericano – o Babyboomer, nascido no pós-guerra – conseguiu equilibrar o gosto por estas bebidas açucaradas com alguma cultura trazida pelos seus pais, que passaram alguns poucos anos na Europa a lutar contra o nazi-fascismo. GalloGanharam a guerra e trouxeram para casa o gosto pelo vinho. Moral da historia – os americanos hoje consomem 10l/ano, tornando-se o principal consumidor do mundo, visto que sua base estatística é muito superior a dos países que consomem mais de 30l/ano (300 milhões de habitantes contra 50 milhões no máximo).

DNA99O Brasil não. Os Brasis. Não se pode impor um estilo gaúcho ao centro do país, cujas condições climáticas e de solo são tão diferentes como dá para ser diferentes, seja em temperatura, seja em ritmo, seja em espectro térmico, seja em solo… Seja em tudo.

Não se pode impor à parte da Campanha gaúcha, os vinhos de altitude de Sta Catarina pelas mesmas razões, assim como vale o raciocínio até para o que ocorre em torno do próprio Vale dos Vinhedos, a região que concentra o grosso da produção, da tradição e da cultura do vinho.

Ai nos vemos nas grandes encruzilhadas. Aquele terreno mostra-se bom para Cabernet FrancCabernet Franc. Basta isso para voltarmos a produção majoritária desta uva? E o mercado como vai reagir? E o investimento em educação, propaganda e ações de marketing é suportável por esta industria frágil e comprometida com impostos penalizadores?

E o Gamay, que seria uva boa de se tomar mais fresco, vinhos de menos concentração, teria boa aceitação a ponto de ser a nossa cara internacional, “jovem, alegre, cheia de otimismo”? O Gamay vai bem? A Miolo tem uma longa experiência, é preciso perguntar para os Adrianos o que acham. A Aurora vem apostando nos Pinot Noir há tantos anos, não posso garantir que sempre com o mesmo apuro necessário. Mas desde Pinto Bandeira, o projeto é crescente e animador.

E os brancos, desde o Riesling Itálico e os Moscatos que se notabilizaram pelos internacionais Moet&Chandon e Martini, até os fantásticos Semillon da Pizzato, os Sauvignon Blanc da Guaspari, o Gewurzstraminer da Cordilheira de Sant’Ana, o Peverella da Era dos Ventos e tantos outros que estão ai para serem degustados.

Paradoxo SaltonA Perini, a Salton e outros estão apostando no mercado internacional com vinhos de entrada, baratos, jovens, refrescantes, tintos, brancos e rosados. É isso?

O mercado vai criando seus nichos, como o de vinho sem madeira, como o de biodinâmicos, biológicos, veganos, naturais, com leveduras selvagens. O Brasil tem alguns produtos como estes e o segmento deve crescer acompanhando tendências mundiais.

O QUE SE PRECISA

Queria participar de um centro de estudos do vinho (mais uma vez) para tudo provar, para promover palestras, para discutir as questões candentes, as experiências fora da curva, para ouvir os mestres do vinho e seus detratores. Um centro que sugerisse e planejasse desde a construção da planta das novas vinícolas, até o que eles deveriam colocar no mercado, em comunhão com todos os outros consultores, da Embrapa e de outras entidades de fomento da enologia, da engenharia agrícola, mas também de pesquisa, análise e tendências.

Entidades como a Ibravin e ABE só podem ser – no máximo – avalistas de projeto como este, pois são chapa branca demais, fogem de tudo que possa contradizer os produtores que as financiam.

Porque era preciso uma coisa externa e independente, que caminhasse para um Centro de Pesquisa, com gente de biologia, engenharia de alimentos, geologia, centro de imagens, agronomia etc. Nada contra ao que se tem em Caxias do Sul mais voltado para a degustação, mas um centro que ajudasse a construir indicadores, elaborando mapas que ajudem a orientar a consolidação do vinho nacional, algo que pulsasse junto a todos os setores vinculados ao negocio do vinho, da planta ao mercado.

Para a idoneidade e a massa crítica necessária para a sugerida interdisciplinaridade, seria mais adequado endereçar à USP ou Unicamp esse tipo de sugestão. Uma delegação pra conversar com os reitores pode funcionar.

Esta delegação precisaria ser formada por gente de pesquisa em geral, por enólogos consagrados, por especialistas com notório saber em alguns dos ramos interdisciplinares, por representantes da cadeia de produção e circulação, por formadores de opinião, sommeliers e outros interessados.

PS – esta não é a primeira vez que reflito e caminho neste sentido. O WineIn de 2013 começou a amadurecer na USP, no Instituto de Estudos Avançados, no Observatório da Inovação e Competitividade anos antes. Ano passado lancei no Facebook um caminho similar.

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Espanha, sem inventar moda

A Espanha tem trazido algumas novidades da hora, da passagem do milênio pra cá, depois que a Itália e a Austrália comandaram o novo, no Velho e no Novo Mundo. A Austrália com seu marketing, com seus cortes ousados (Cabernet Sauvignon+Syrah, quem diria?), abrindo caminho para todo tipo de brincadeira entre vinhos) e a Itália quebrando a fórceps as amarras das Denominações a partir dos Super-Toscanos.

Pé franco
Pé franco em Toro

Isso é injustiça para com o espírito novidadeiro de tantos produtores, até mesmo na Espanha de Penèdes, onde desde os anos 1970 – Gran Coronasportanto contemporâneos às novidades da Toscana – os vinhos da Torres, os Coronas já saiam com corte bordolês, surpreendendo os entendidos menos avisados, a ponto do Gran Coronas 1970 ter recebido notas apenas abaixo de um Lafite, na França, em 1979/80 e o Coronas 1970 ter ocupado o 7º lugar! Um sucesso enorme, embora menos barulhento que o Duelo de Paris, envolvendo os “franceses” da Califórnia.

E o que dizer de o espantoso Abadia Retuerta de Pascal Delbec, um outro Tempranillo/Cabernet Sauvignon que me fez criar uma entrevista imaginária, onde o enólogo responsável pelo Chateau Ausone respondia por sua paixão santemiliana, mesmo em Ribera del Duero. Na verdade, a Espanha não precisou de inovações para ser inventada, os Tondonia e os Vega Sicilia.

Mas, como muita inovação se criou em tantos lugares, muita produção se multiplicou, fazendo do vinho um dos mais rentáveis agro-negócios,  que nem sempre encontramos algo de verdadeiramente novo, a ponto de chamar a atenção pela inovação. O que queremos é ser surpreendidos por um novo que nos agrade na hora, sem ter que fazer muito esforço para nos convencer. Portanto, há de formar um mix entre novidade e conhecimento já digerido que permita o acolhimento.

O problema é que quase sempre esta mistura entre o novo e o conhecido nos leva a uma situação de dejà vue, uma coisa meio maçante que na economia do mercado pode ser traduzido por Commoditie ou Mais do Mesmo!

Legal é quando o novo é suficientemente interessante, quando o que se tem para mostrar se adapta a uma procura daquelas que você descobre que estava a fazer, quando a solução aparece. Mais legal ainda quando isso se dá quando o que impacta positivamente não custa mais do que se espera.

No mundo do vinho, acontece bastante, afinal produz-se com uvas e terroirs tão distintos, com um quantum de novidades tão aprazíveis mundo afora, que é fácil imaginar algo que dê certo, que não seja simplesmente mais um golpe do marketing do vinho, como tantos por aí.

Neste quesito, o mundo tem sempre o que inventar, não apenas e não principalmente os espanhóis.

Vinhos feitos por enólogos em conjunto, uma mostra de terroir, como o que se fez no Chile, envolvendo cinco enólogos e cinco enólogas da Tabali, da Errazuriz, da Undurraga, da De Martino da Laberinto etc. Reuniram-se todos para fazer um 5X20 masculino (cinco enólogos, cada qual responsável por 20% do vinho) e um 5X20 feminino elegendo a Syrah como uva mestre. Por que? Pra que? Será a Syrah a uva mais importante destas vinícolas? Até onde sei não são, pois a Cabernet Sauvignon, a Merlot e a Carmenèrre são responsáveis por alguns dos melhores vinhos do Chile feitos por estas casas… Então por que? Jogo de marketing, vontade de criar fatos novos, estar na mídia, revelar-se. Os vinhos ganharam importância, e o “M” feito pelos homens custa em média 98Euros, de acordo com a Wine Search5X20, o que em dinheiro brasileiro, daria um preço acima dos R$800,00, mais perto dos R$1500,00.

Alguns produtores da região nobre de Toro, Espanha, passaram a trabalhar com um corte de 80% Tinta de Toro (Tempranillo)+Garnacha, com um ano de madeiras francesa e americana, pós malolática induzida em madeira nova e anos e anos de guarda em garrafa, trazendo o essencial da madeira,
mas deixando prevalecer a uva e seus primários, como é o caso do Bodega Estancia di Piedra Crianza, um dos melhores vinhos que pude experimentar numa das últimas viagens a Espanha.

Para finalizar, mostro este Art In Vitro Tandem de Navarra, merlot/tempranillo, 14% de álcool, um vinho que está conquistando seu lugar comercial até no badalado Lavinia parisiense, ao mesmo tempo que recebe aplausos na Decanter inglesa.

Seu frescor está em descartar a madeira, mas não o longo descanso, pois depois de ser fermentado em aço, faz a malolática completa e 22 meses de afinamento em concreto.

O resultado é bonito de se ver, limpo, complexo e longo na boca, levemente floral no nariz. E o preço – o último dos sentidos organolépticos – está longe de doer.

 

 

 

Artigo do Le Monde- Cruzes-hermitage

http://www.lemonde.fr/m-perso/article/2018/01/29/crozes-hermitage-le-bon-gout-en-heritage_5248480_4497916.html

LE MONDE | • Mis à jour le | Par Ophélie Neiman

Tradução livre e não autorizada pelo autor – minha.

tain-hermitage-80047Esta estrela dos bistrôs tem tudo para agradar: os perfumes da Syrah, um ar de hedonismo, e, principalmente, dezenas de milhares de hectolitros de produção.

O bom senso é o que se melhor divide, escrevia Descartes. Degustando um Crozes-hermitage, pensa-se que o bom gosto é o prolongamento natural deste pensamento. Esta AOC tem uma popularidade fiel e meritocrática. Nos bistrôs dos bairros, ela ocupa, há ao menos 15 anos, um lugar de destaque para quem quer degustar um vinho prazeiroso, chique sem ser caro em demasia. Mesmo que venha perdendo terreno para os vinhos mais chamativos e menos caros, quase sempre do Languedoc, o Crozas-hermitage continua sendo uma opção sem riscos.

CrozesÉ um vinho que nasceu com a estrela. Ou, mais que isso, sob a luz de um excelente paralelo, o 45e norte, com quem divide regiões como Bordeaux, Oregon e Piemonte. Uma latitude considerada como uma linha de equilíbrio ideal para os grandes vinhos.

A pequena cidadezinha de Crozes (do latim Crucem, “A Cruz” ou “Cruzamento”) vizinha de Tain-Hermitage, faz o papel de contrabaixo da famosa Hermitage. A Appellation Cruzes-hermitage nasceu em 1937.

No inicio, serviu de limite da comunidade, para dar evidencia às belas parcelas do Hermitage. Foi preciso esperar até 1952 para que a Appellation ganhasse sua dimensão atual, de 1700 ha de vinhas plantadas, podendo chegar a 3000ha, com 80 mil hectolitros anuais, a metade de toda a produção do Rhone Not, que contém igualmente Saint-Joseph, Hermitages, Cornas e Condrieu e Côte-Roties reunidos.

rotulo CH
Um dos rótulos da AOc mais famosos entre nós

Para saber mais http://www.lemonde.fr/m-perso/article/2018/01/29/crozes-hermitage-le-bon-gout-en-heritage_5248480_4497916.html#AUs2kVlRWpQA97pj.99

Crescimento de exportação dos espumantes italianos. Fonte Sindicato Agrícola Coldiretti.

Tradução livre e não autorizada de artigo da Revue du Vin de 03/01/2018.

As exportações de vinho italiano atingiram números inéditos de 6 bilhões de euros em 2017, um acréscimo de 7%, anunciou o principal sindicato agrícola da Itália, logo na virada do ano. Para comparar, a França exportou 7,9 bilhões de euros em 2016.

As vendas para os EUA cresceram 6%, principal cliente histórico dos vinhos italianos, mesmo com a alta do Euro. Cresceram igualmente para o Reino Unido (8%) e Alemanha (3%).

OS VINHOS ITALIANOS SEDUZEM RUSSOS E CHINESES

Mas é na Russia que o vinho italiano bateu todos os recordes com um aumento de 47%, até porque a Itália não obedece as sanções que sofre a Russia por conta da invasão à Ucrânia. As vendas na China progrediram 25% mas são relativamente pequenas se comparadas às francesas.

São os vinhos espumantes como o Prosecco que sustentaram as exportações italianas, pois cresceram 15% em valor atingindo 1,1 bilhão de Euros, sempre segundo o Sindicato Agrícola Coldiretti.

CLAQUETE 5

Biondi Santi– Agghhhh, que vinho ruim. Você não podia ter trazido algo melhor?

Foi assim que fui recebido e gozado num jantar em pizzaria que um amigo convidou, em comemoração ao aniversário dele.

Estavam presentes mais 3 convivas que comigo e o aniversariante, completava uma mesa de 5.

Levei o vinho de presente, um Brunello di Montalcino que merecia respirar por ao menos, por no mínimo, no limite, UMA HORA E MEIA.

CastelõesPois o trouxa do aniversariante – por mais que eu protestasse – mandou abrir e servir.

Então pedi um vinho da casa para todos, um vinho fácil de beber com pizza, muita acidez e frescor, taninos de baixa complexidade, vinho que na pizzaria não passava de R$70,00. Disse que ficassem tranquilos, pagava eu

jarra– Mas não basta a merda do vinho que você trouxe?

O pessoal tinha conhecimento e ao menos dois deles já tinham ouvido falar de Brunello, mas estes eram os mais inconformados.

-Deixem o vinho que eu trouxe, bebam deste que acabei de comprar.

A questão do vinho voltava à conversa, todos amigos, com intimidade para me pegar no pé. Mas obviamente, era gente que tinha o que contar, gente de boa índole e otimamente formação, alguns deles professores universitários, das mais consagradas universidades deste país. Alguns se conheciam há mais de 20 anos, como era o nosso caso, do aniversariante e eu, que tínhamos feito parte de nossa faculdade juntos, por algo como 3 anos.

A uma determinada hora, muitos pedaços de pizza depois, disse que tinha começado a chegar a hora de tomar o vinho, que finalmente ele já tinha envelhecido um pouco, pela ação do oxigênio do ar.

Disse, queria dar uma oportunidade a provarem um dos melhores vinhos que jamais tinham tomado.

– Tomem de novo, vejam se continua uma merda!

O envelhecimento em taça, a hora e meia que o vinho se manteve lá, foi suficiente para que tivesse mudado do vinagre para o vinho. O oxigênio tinha feito o seu papel de amansar os taninos fogosos, permitindo que ele mostrasse suas frutas, suas especiarias, suas qualidades em boca, que fizeram da região uma das mais consideradas no mundo inteiro.

Todos se olharam com cara de bobo e último a rir fui eu.

10 anos de Vinci. Veni,vidi,vici?

logo VinciA Vinci nasceu oficialmente, porque a Mistral não queria descartar certos produtores que eram concorrentes diretos, a disputar dentro de casa um mesmíssimo nicho de mercado em preço, qualidade, prestígio e volume. Isso jamais valeu para os grandes italianos e franceses que se acotovelam gentil e elegantemente em suas prateleiras, mesmo que um Chapoutier, um Catena Zapata, um Lapostolle não tenham rivais diretos,  como os seus catálogos provam a cada edição.

Diziam também, extra oficialmente, que a Vinci permitiria um ataque direto a canais que a Mistral sempre se distanciou, particularmente supermercados… O que parece não ter ocorrido.

10 anos se passaram e aí está a Vinci, apresentando um Portfolio de bom valor, uma das melhores importadoras do Brasil.

Casa MarinAcomodou perfeitamente a Luca (Laura Catena) e a Casa Marin, que somam com Kaiken, O Fornier, Clos de l’Oratoire des Papes, Morgadio da Calçada (Dirk Niepoort), Castellare di Castellina, CVNE, La Posta, Fontodi, Errazuriz e tantos outros num portfólio de respeito.

Vinho quando não é excepcional é commodity. Depende de quanto representa certa tendência de mercado, certa região demarcada, certo preço compatível com o que os outros importadores apresentam. A mescla procurada pelos caçadores de produtores do mundo é o de distinção e preço, o que faz da Vinci uma empresa competitiva.

Não por acaso, na degustação comemorativa desta semana, a Vinci mostrou vinhos de fácil aceitação como um Primitivo Puglia, uma denominação a meio caminho da ligeira de Salento e da pesada de Manduria. Nos mostrou da CVNE de Rioja não apenas o fantástico out of stand Imperial, mas um Crianza a preço razoável de US$38,
IMG_2469Pudemos saborear um Chateaneuf du Pape como o Caos de L’Oratoire logo depois de conhecer um Cahor Le Palombier de G.Vigouroux de US$18, bem melhor, aliás, que Pigmentum, 100% Malbec de US29, muito mais pretensioso.

A Casa Marin estava voando com Sauvignon Gris, mas o Luca Chardonnay fez tão boa figura quanto, com tipicidade e boa concentração, mostrando que a família sabe bem como tratar um chardonnay (o Alta Catena é talvez o melhor da América Latina, rivaliza com os melhores da Casa Marin).

Para meu prazer, pude constatar minha admiração pela Casa Marin de várias formas, seja na linha Lo Abarca, seja na Cartajena. Pude ver belos vinhos franceses acessíveis, coisa nem sempre comum, particularmente este Palombier de Cahor e um Borgonha genérico do C. Corton C que mostrou singelamente como deve ser um vinho com esta uva mágica, a Pinot Noir.Borgonha

Foi possível o Irmão Unidos da Cave São João, que já tinha me impressionado com seu corte com Bical em outra oportunidade. Me surpreendi com o Kaiken Torrontés, muito agradável para ser desta uva tão difícil de se fazer bem feito.

Pena que a Pinot Noir da Oyster Bay estivesse ocupando um lugar que poderia bem ser de seus dois brancos e mesmo do ótimo Merlot. Minha crítica a este vinho rendeu um artigo, cujo título provocativo era algo como “Porque comprar um vinho que custa 20% mais e vive 20% menos?”…Eu que sou sempre fã da uva borgonhesa não vejo graça neste da Nova Zelândia, que o mundo paga o maior pau.

Gostei de conhecer, mas não gostei do que conheci numa taça de um vinho de Mencia, o Señorio de la Antigua, que tanto impressionou os críticos da WS e da WE. Não desceu.

Mas o geral é que importa, saber que a Vinci tem vários bons vinhos competitivos e confirmar seus excelentes ícones valeu comemorar os 10 anos de Vinci com esta modesta reportagem.

Saiu na Vinho & Cia.

VC5Venho tentando me entender no complexo agro-industrial, econômico, político, histórico, antropológico e social mundo do vinho. O vinho vai do plantar até o setor de serviços, envolvendo centenas de profissões e atividades. Vira-e-mexe me dá uma necessidade de chafurdar informações, cruzar certezas, inspecionar. Esta série (este é o segundo capítulo) produzo para publicar na decana Vinho & Cia.

PARA ENverdeTENDER – RAPIDINHO

As transformações no tempo e as Denominações de Origem Controlada
BRASIL – POR BRENO RAIGORODSKY – O produtor dos vinhos de hoje não é o de ontem, em boa parte porque o vinho de ontem não é o de hoje. Desta tão singela constatação, boa parte é ruim, boa parte é boa.

1ª Parte – Boa e Ruim – Hoje o negócio vinho é feito por profissionais espalhados por toda a cadeia de produção e circulação, desde o capital investido, eventualmente sem qualquer contato com a terra que produz, até o comerciante, que talvez jamais tenha bebido uma taça de vinho, porque basta o aval dos Robert Parker da esquina para vaticinar se o produto é bom ou não.

Antes o vinho popular era produzido junto com outros produtos voltados para o consumo interno, nada mais que um alimento líquido, presente nas mesas familiares, o que lhe dava um ar de coisa rural, simples, tranquilo como a massa e o azeite, como os embutidos e o queijo que se produzia em casa. Note-se que a população rural era maior do que a urbana nos países do Ocidente, o que significa dizer que até os anos 1970 dificilmente alguém que morava na cidade não tinha um parente ou uma propriedade produtiva no campo. Isso era certeza nos países das penínsulas Ibérica e Itálica, na França, Suíça, Holanda, Bélgica, Alemanha.

maceraObviamente, houve uma corte no passado, que não seguia esta lógica popular, o que fazia com que o habitante deste ou daquele lugar fosse de primeira ou segunda categoria. Se era nobre, militar ou aristocrata, havia uma sofisticação na mesa, um produto divino, uma roupagem e um tratamento cuidadoso. Se era povo do campo ou da cidade, era consumidor de outras coisas, quase sempre de qualidade inferior aos consumidos pela corte. Para não ir muito longe, assim como a gastronomia, o vinho da corte chegou à mesa da burguesia a partir da Revolução Francesa pelos anos que a seguiam.

IMG_1079Quem bebe este vinho do presente é uma pessoa diferente, eventualmente sem qualquer relação hereditária com os consumidores de antão, por mais que aqueles possam ter influenciado estes.

2ª Parte – Ruim e Boa – Hoje são seguidos princípios enológicos muito mais precisos do que antes dos anos 1980, quando a revolução enológica Peynot invadiu a produção, com suas inovações técnicas, com as medidas de açúcar potencial da uva, com sua micro-oxigenação, com a indução da segunda fermentação (malolática) antes do descanso em madeira, aço ou garrafa. Questões como as de terroir, saíram do plano místico e puderam ser perfeitamente decupadas, dando um verdadeiro e científico lugar àquilo que é de fato específico a cada vinho – pois as condições ideais de clima + solo + água + uva + técnica de produção foram destrinchadas suficientemente para se reproduzirem quase à vontade por todo o Novo Mundo, e mesmo por boa parte do Velho Mundo, que não se atrevia a tanto. Hoje vinhos bordaleses, tão bons quanto os de Bordeaux, são produzidos na Califórnia, na Austrália, na Toscana e em tantos outros lugares – incluindo o Brasil –, entendendo-se por bom aquilo que os vinhos de Bordeaux atingiram em matéria de qualidade.

No entanto, as velhas técnicas, pela observação dos produtores, pelo gosto dos consumidores, consolidaram uma escala de confiabilidade e prazer traduzida por alguns rótulos místicos que ganharam corpo com o passar dos anos, tornando-se referências de tudo o que veio depois. As técnicas modernas se apropriaram da estética (Latu sensu) dos vinhos antigos, ou seja, foram atrás de suas uvas, de sua extração, de sua madeira de guarda, de seu tempo de encorpar e conseguiram imitá-los.

Neste contexto, voltamos ao nosso ponto – as Denominações de Origem. Elas foram e continuam sendo, em parte, um guia de quHautalidade, apesar de não serem mais suficientes e unanimemente aceitas como tal (será que um dia foram?).
Afinal Haut Brion, um vinho de qualidade máxima de Bordeaux, já começava a tornar-se referência na Inglaterra no início do século XVII, como atesta correspondência entre dois amantes da bebida na primeira década dos anos 1600. Haut Brion para estes ingleses. Logo depois, por influência direta dos comerciantes holandeses, tornaram-se também Lafite, Latour e Margaux para outros bebedores de vinho da Corte inglesa.

Para a França – cuja aristocracia da Borgonha tinha a supremacia mais que centenária – os grandes vinhos eram os da região, particularmente entre Beaune e Dijon, com prevalência para os da Côte de Nuits. Na Itália da pré-reunificação os únicos vinhos produzidos no país eram da região do Langhe piemontês, preferencialmente de Barolo.

Desde os tempos da Império Grego associava-se os vinhos de uma região à qualidade. Ah, aquele vinho é da Enotria (atual Itália), para além de Roma. Ah, aquele vinho Enotriaé de Cahor e é feito com Cot (Malbec).

Ou seja, a Denominação de Origem foi criada para garantir qualidade e, com isso, eternizar um mercado para os vinhos produzidos na região reconhecida. Evidentemente, com o crescimento do mercado, com a internacionalização dos consumidores, isso se tornou mais difícil, até porque muitos deles decepcionavam e tantos deles exigiam uma verdadeira enciclopédia para localizá-los.

Vamos continuar o assunto? Anuncio para o próximo artigo mais do mesmo: partes ruins e boas.