Balancete incompleto 2019. Ou o samba do criolo quase doido.

O que mais curti no ano que passou foram os espumantes brasileiros.

Para falar sobre isso, peço desculpas antecipadas aos poucos que me leem, mas serei obrigado a citar um certo número de nomes, assim como peço igualmente desculpas aos que não citarei, muitas vezes por desorganização, esquecimento ou ignorância.

Sabe o que é?

Veio até o Steve Spürer, na babação de ovo da IBRAVIN, dizer que os brasileiros tinham tipicidade, eram leves, alegres e jovens como o povo deste país. Um papo nada novo, que confunde potencial com nicho de mercado. Aquela palhaçada promovida pela IBRAVIN de trazer um Super Star do mundo do vinho para avaliar os cavalos paraguaios do hemisfério sul contra os brasileiros, de estabelecer o que é bom e o que é ruim, antes mesmo de abrir a garrafa, está de longe superado.

Sim, podemos e devemos fazer os vinhos que são aceitos aqui e acolá, como as vinícolas estão fazendo quando pensam numa porta de entrada mais acessível aos mercados maduros e competitivos, como o dos EUA, da Alemanha e da Inglaterra. Nesta estratégia, vejo produtores trabalhando com seriedade, produzindo vinhos de boa aceitação entre os mais jovens, seguindo as lições que os australianos da Yellow Tail deram ao mundo todo.

Ou seja, traduzindo para quem não entendeu bem: Dizem os militantes da excelência atingida “vamos deixar estes caras concorrendo com os espumantes mais levinhos, enquanto reservamos o mercado mais nobre para os tradicionais de Champagne”.

Ou seja, façam por aqui um vinhozinho fácil de beber, atendam o mercado crescente, que dos grandes apreciadores ocupamo-nos nós, como sempre, desde que a Viúva conquistou a corte russa.

A verdade é que o mundo vem fazendo sombra às borbulhas de Don Perignon desde que os franceses foram ensinar catalão fazer espumante, nos idos de 1800 e bolinha, com as uvas locais. E a sombra não parou de crescer depois que apareceram os grandes italianos de Franciacorta e os grandes do Douro em Portugal.

“CHEGA DE CONCORRÊNCIA”, ouviu-se um grito lancinante desde a catedral de Reims, chega desta gente querendo tirar o que é nosso.

Enquanto ninguém se aventurava a fazer grandes incursões no espumante excepcional, que exige paciência e capital, que obriga uma aposta no futuro e no prestígio da casa que se aventura a isso, tudo bem.

Foto do Luiz Cola

Nove vez fora o Geisse, ninguém ia tão longe na autólise e na aposta, até onde sei, apesar de várias tímidas tentativas neste sentido, que estão em laboratório desde o início do milênio.

De repente temos ai vários produtores nadando de braçada nesta onda de produtos cujo perfil atende os mais exigentes, os maiores conhecedores…aqueles que compram produtos de primeira linha, não para ostentar com o rótulo, mas para fazer honras ao máximo que aquela composição permite.

Abrem espaço e servem de incentivo para produtores de grande qualidade como a Vallontano e a Angheben, só para citar duas com consagrada qualidade, que já fazem bons produtos ao método tradicional mas eventualmente sem condições financeiras de apostar tão alto.

Recupera a vontade de apostar numa Routhier&Darricarrere que tirou de linha seu Ancestral por falta de público, apesar de ter-se voltado para um incrível Red e um superior Província de São Pedro Natural Extra Brut…

Mas foi nos grandes espumantes que me agarrei.

Luiz Argenta Rosé Nature, o Azir Salton, O Nature Pizzato, o Biografia Brut Maximo Boschi e o Iride Miolo, defendem meu ponto de vista – reescrito à exaustão – que esta coisa de ter um espumante tipo brasileirinho, leve e solto, jovem e gostozinho é conversa pra boi dormir.

É defesa de território, quando se trata principalmente de decisão comercial: será que o mercado consegue absorver meus vinhos mais caros ou não?

A Routhier&Darricarrere fez um a la anciene e decidiu que o mercado não pagava, desistiu, ao menos por enquanto.

Quem sabe produtos como os citado acima + os Valduga – particularmente este Sua Lie que encanta a todos – o X Decima, Vallontano e os Estrelas do Brasil incentive alguns produtores a fazer mais e mais produtos que procurem a excelência, por que não?

Vinhos de uvas colhidas na hora certa, vinhos que suportam longos processos de sobre-borras e tecnologia e enologia suficientes para manter – ao longo do processo – toda a química sobre controle, têm dado muito certo, mesmo fora da supervisão de nosso mestre mais consagrado, seu Mario Geisse, que, não contente em fazer seus grandes borbulhantes, andou prestando ótima assessoria por ai, incluindo o Perini, que assim entrou na categoria dos bons e baratos no género.

E mais, bem mais: no degrau mais baixo da escada da excelência, a saber os produtos com menos tempo de sobre-borras e sem ainda a necessária relação de acidez e maciez para construir um enorme Nature.

Honra a Chandon que continuou num lugar de destaque entre os Charmat, a Perini, a Aurora de Pinto Bandeira, a Peterlongo – que revigorou-se – a Aliança, o Zanoto, o Bueno, a Pericò, a Villa Francioni, O .Nero da Domno…honra até as duas uvas mais brasileiras que italianas, a Riesling Itálica e a Moscatel, que atingem a maturidade, depois de um longo ciclo de ajuste de qualidade.

Ou melhor, o que mais curti foram os brancos brasileiros… ou quem sabe os tintos brasileiros.

OS TRANQUILOS DO ANO

Moral da historia, o que mais curti foram principalmente os brasileiros em geral, brancos e tintos tranquilos, brancos e rosés espumantes.

Salamanca do Jarau, o melhor cabernet sauvignon; Maria, Maria, o melhor tinto de inverno, Sauvignon Blanc Guaspari; o branco mais Bordeaux que se faz no continente; Semillon Pizzato, o mais surpreendente dos vinhos especulativos dos últimos anos; os primeurs da Miolo, um melhor que o outro. Os Luiz Argenta, que justificaram o design, saindo da armadilha das grandes garrafas para se mostrar uma vinícola de grande respeito. Os Valduga de primeira seguem a linha aberta pelo ícone Storia, que junto com o Lote 43 formaram a linha de frente da nova enologia brasileira. O Concentus Pizzato continuou se afirmando como o melhor corte brasileiro. 
Os melhores vinhos tintos continuaram sendo, agora em novas safras, mostrando grande consistência produtiva, dando confiabilidade importante a si, o Lote 43, o Terroir Miolo e o DNA99 Pizzato, por mais que tenham se apresentado tantos vinhos de respeito.

O Serena, Pinot Noir biodinâmico não chegou a me empolgar, talvez porque cria-se tal expectativa quando um vinho custa tão caro assim, que qualquer coisinha resvala, a exigência fica alta demais. Quem sabe os anos e as próximas safras me atinjam com o raio da adoração, como ocorre já com outros tantos amigos e entendidos, que estenderam o tapete vermelho para ele e lhe deram o trono do que há de melhor que se faz pelo Brasil. O Syrah Alma Única merece estar na lista. Villagio Bassetti, Pinot Noir idem.

Enquanto os vinhos (bem) acima dos R$150,00 pululam no mercado - geralmente pequenas produções vendidas particularmente para os restaurantes mais procurados pelos estrangeiros no Brasil, que querem e podem experimentar o que há de melhor feito por aqui - os abaixo dos R$70,00 brasileiros cresceram muito, os brancos frescos são bons, mesmo os chardonnay que até então andavam banhados em madeira, à procura de um caminho que exige muito maior investimento. Um bom exemplo? O Pinto Bandeira Aurora. Outro exemplo? A linha Fausto, com a minha preferência especial ao Rosé de Merlot. Mais alguns? A linha Estância dos Guatambu de Dom Pedrito, a linha Paradoxo da Salton, os blends da Sta Rita dos vinhos de altitude.

Os Pinot Noir começaram a por as mangas de fora, tem um ou outro que não segue mais o padrão esdrúxulo do suquinho de uva com gostinho de fruta vermelha, que se costuma fazer com esta nobre cepa, que bem podia ser feita com o mais simples e jovem Gamay. 

Finalmente os Cabernet Franc, uma avalanche, alguns muito bons, foram a boa tendência. Esta uva, responsável por boa parte dos vinhos do Loire e do lado direito de Bordeaux, já foi importante no Brasil, pode ter sido a primeira grande vitivinífera que tivemos na região que se consolidou como o Vale dos Vinhedos. Decaiu, em parte por conta da fragilidade perante fungos e más escolhas de clones, em parte porque acostumou-se a fazer um vinho pouco tânico, com alta acidez e juventude. A tendência atual é fazer vinhos bem mais concentrados e de guarda, com bons investimentos.

Chama a atenção produtos como o Parcela Única Perini e o Philosofia do Goes de São Roque, mas não podemos esquecer que o Aurora Pequenas Partilhas jamais esmoreceu, está firme e rijo desde o primeiro lançamento!

É isso aí, que a década que se inicia traga melhores alternativas políticas para o mundo e melhores e mais acessíveis vinhos para todos.

Que as insidiosas burrices comercial e fiscal sejam expelidas para o ralo desde as latrinas dos burocratas de plantão em Brasília, que o vinho finalmente seja taxado como alimento e não como artigo de luxo!

As recomendações do amigo Vincenzo

Poucas vezes tive contato com alguém tão polêmico com este ex-professor de patins que veio ao Brasil atrás de um rabo-de-saia e só voltou à sua Lucca, de modo definitivo, 40 anos depois, seja para tratar de sua mãe, seja para dividir com sua irmã o restaurante da família em Lucca (Ristorante Puccini, corte San Lorenzo 1/3, tel. 0583-31.61.16 {chiuso a Mezzogiorno di martedi e mercoledi}), seja para tratar de seu crescente glaucoma, seja para se livrar de vez das confusões com as contas de seus restaurantes.

Vincenzo Venitucci teve seus momentos num restaurante na Pompéia, SP. O família Venitucci causou por algum tempo, enquanto a qualidade da cozinha venceu o embate contra a decoração de mau gosto e o atendimento autoritário do chef.

Vincenzo foi-se do Brasil criando ao menos um amigo – eu – que tenho como troféu a Língua à Cardinale que ele me ensinou fazer, que nada mais é do que uma língua cozida, servida fria, temperada com um molho de pesto, tratada como se fora um embutido…ou seja, com 3% do peso da peça em sal, curtida por 3 semanas até que toma um banho de grogue à base de vinho, cravo e canela, para ir à panela apenas uma semana depois disso. Dela fiz tantas variáveis, quentes e frias, mas a base, a textura, sempre segui com fidelidade canina.

imagem pertence a Depositphotos

Em 2005, estava para ir à sua seara, a Toscana. Pedi-lhe algumas indicações por email. Segue a sua resposta. Como não consegui recuperar o dito escrito, reproduzo o que tenho em papel.

  • Mi felicito per la tua prossima BRENO´S WINE AND GASTRONOMIC ADVENTUR. Non so ancora se devo reagir com rabbia o invidia, per non partecipare con te. Però, pensandoci bene reagiró, con la Maggiore felicitá per te. Divertiti e gode. Se mi permetti, dal momento che mensioni la Toscana dei Tuscii, sicome io sono veramente un discendente puro d’ Etruria, approffiterei per dare un poco di “brilho” in più alla tua barba ed ai tuoi baffi.

BISTECA ALLA FIORENTINA – particularmente pertence aos animais da Val di Chiana. Peso ideal, 900g, feita de filetto e controfiletto. Assado por cinco minutos ao máximo de cada lado, de preferencia na brasa, mas pode também ir para a grelha. Regue com azeite extra-virgem quando já está no prato. Acompanhamento – feijão Cannelini espanhol e saladinha

Castelo, agro-negócio na Toscana, perto de Siena

(vinho Chianti, sem discussões)

FORMAGGIO-Na região de Sangiminiano, Volterra e Montalcino,

você encontrará queijos de ovelha de comer de joelhos. Queijos frescos e curados. Vinho Scalabrone della Tenuta Belvedere di Bolgheri (Livorno).

SALAMI DI JAVALI – tudo pode acontecer no mundo, mas…na Toscana dificilmente você encontrará salame de cinghiali.

Ou terá linguiças ou presunto. Estes são os dois clássicos desta besta peluda Existem frescos ou conservados sott’olio. Coma com pão caseiro, de preferencia sem sal, azeitonas negras em salmoura, alcachofrinhas e funghi Porcini sott’olio.

Como se trata de especialidade de Siena, beba SASSOALLORO Biondi Santi

FUNGHI – vocÊ vai chegar na Itália no fim da estação de funghi (outubro/novembro). Tente comê-los fritos com costeletas de cordeiro a milanesa. Bebida? Sem hesitação sugiro CARMIGNANO, Tenuta di Capezzana.

TARTUFI DI SAN MINIATO – e de onde, se não for daí? Merda di Venitucci, canalha, velho chato de merda, nervoso, pretensioso etc.

Se sou tudo isso, porém amo falar, dizer verdades, expulsar as mentiras e historias falsas. Creia-me, Breno.Há muitos anos, quando se fala de trufas brancas se deve pensar naquelas de San Miniato. E quando se fala das pretas, se deve pensar nas de Norcia, Umbria. Mas como sou Etrusco, fiquemos na Toscana, deixemos que os da Umbria defendam-se por si.

Todos sabem que o Piemonte e particularmente a cidade de Alba, não tem praticamente nada de trufas, pois sua produção atual é praticamente insignificante. Tornou-se uma SERRA PELADA! Retirada indiscriminadamente durante decênios. O uso dos suínos, que sendo porcos encontrava um e comia dois. Você sabe que o porco usa para retirar a trufa seu nariz como se fosse um arado. É igual a Attila, rei dos Unos. Por onde passa porcos e Attila, nada cresce, nem grama.

VINO CHIANTI DA PROVÍNCIA DE PISA. GRANDE…GRANDE…GRANDE – Nada a dever os grandes Gallo Neri.

Os mais importantes são:FATTORIA DELL`UCCELLIERA – FATTORIA SAN GERVASIO – FATTORIA BADIA DI MORRONA – TENUTA ENRICO PIERAZZUOLI

Os vinhos nascem do petróleo?

Vindo das profundezas mais profundas, a negra mão do capitalismo, a fonte de lucro das 7 irmãs, a mais lucrativa das matérias primas desde a segunda revolução industrial, o petróleo é finito, polui, deixa o ar fedido e é do mal… cada vez mais.
Mas, e não pela primeira vez na história, nasce deste mal um bem gerado por quem o possui.

BULGHERONIAlejandro Bulgheroni, além de ter investimentos no ramo do petróleo no México, Argentina e outros, faz um Blend de vinícolas norte-americanas, argentinas, uruguaias e agora italianas, com a compra recente de três casas toscanas a partir de 2012, a Chianti Dievoli, e a homônima montalcina e agora a Meraviglia de Bolgheri.

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em Bolgheri, com as costas para a montanha, com o nariz para a Córsega

Blend que ficou ainda mais famosa depois do grande prêmio conquistado pela Garzon, braço uruguaio da holding, como a mais interessante vinícola do mundo na Critic’sChoice Awards 2018, seja pela ousadia no relacionamento com os amantes de seus vinhos, seja como investimento, seja ainda como vinícola produtora de vinhos TOP que respeitam a sustentabilidade do ambiente em todos os níveis.GArzon Balastro

Bulgheroni mostra o tempo inteiro que não está para brincadeira, não está nem um pouco afim de ficar queimando dinheiro bom do velho combustível fóssil com esta novidade que nasceu apenas a 5 mil anos, o vinho. Ele ganha dinheiro, porque entendeu a essência do negócio, e parece que nunca deixou de entender. Como diz um artigo da GamberoRosso – quem sabe a mais antiga e prestigiada certificadora de vinho da Itália – dar-se o nome de Meraviglia à vinícola de Bolgari recém adquirida é assumir para si que é possível fazer o máximo na região, por mais que ela esteja impregnada de grandes produtores de excelência engarrafada. Com vista que domina a campanha de Bolgari, virgem de defensivos agrícolas e com alcance que nos leva até as montanhas da Córsega, a vinícola já disse a que veio, do ponto de vista de seus produtos de primeira qualidade.
Mas não vai ficar por aí, porque o que vai ser em 2022 vai reunir wineshop com sala de degustação de 120 m² e uma estrutura de ambientação da experiência vínica, como em todas outras vinícolas do grupo, aliás. Trata-se de investimento da ordem de 12 milhões de euros (cerca de R$55 milhões).

OS VINHOS – 20190926_174211Mas nós viemos aqui para refletir sobre a economia que transforma combustível de maquinário em combustível de prazer ao corpo humano, ou para falar de vinho, este produto que quase nunca sabe manter seus amantes satisfeitos, que logo tem pensamentos infiéis à menor aparição de um rótulo novo?

Na degustação o que me agradou mais de todos é um produto menos importante, menos trabalhado, menos caro, aquele que quase cabe no meu bolso, falta só custar 2/3 mais barato!

É do Brizio Rosso di Montalcino que estou falando… ele passa por 12 meses de tonéis de 5400 litros de carvalho francês sem tostagem, marca do enólogo Alberto Antonini, o cara que se consagrou na Garzon.

Mas falo também, é o vinho que se quer à mesa, quando se trata de harmonizar com alguma comida mais suculenta, carente de uma acidez para complementar, uns taninos elegantes.

Sim, sim, está bem _ senti os identitários, as frutas vermelhas maduras, a cereja e morango, as especiarias, particularmente a pimenta do reino. Mas JAMAIS recomendo um vinho porque ele cheira a compota. Indico porque ele atende a expectativa, porque ele é uma expressão correta de um determinado vinho de uma determinada região. Pois este é um autêntico Rosso di Montalcino, só que mais elegante do que normalmente costumam ser.
Mas depois veio o irmão mais velho dele para a taça, muito tudo, madeira, concentração, compota de tudo aquilo que tem no Rosso, mas multiplicado a enésima vez, tornando-se, no meu entender, um vinho enjoativo à segunda taça, fruto 4 anos de madeira, exigência da Denominação que quer manter este padrão de vinhos clássicos.

Numa versão custa mais de R$650, na outra, quase R$1000.

Ai, tiro da manga a valorosa reflexão do Slowfoodista di Bergamo, Luigi Veronelli, o primeiro grande pensador do mercado odierno de vinho – Estes aí me trarão 3 e 5 vezes mais prazer que o Rosso di Montalcino? Não, certamente não. Eu sei que encho o saco de quem adora aqueles vinhos sem qualquer transparência, com muitíssimo álcool e nenhuma preocupação em ser gastronômico, levando a consequências desagradáveis o que se fazia antigamente. Afinal, afinar um vinho com madeira exagerada era o recurso que se tinha para cumprir a malolática, usar de madeira em toneis que respiravam/oxigenavam o produto, numa espécie de processo constante. Mesmo assim, o bom Barolo, com 36 meses de madeira e ao menos 24 meses de garrafa, ainda precisava de uma boa hora e meia respirando na taça, na jarra ou no decanter…

Mas então, fui levado a degustar o grande vinho da tarde.

Ué, mas eu não disse que o que agradou mais foi o Rosso di Montalcino? Em matéria de vinho, a infidelidade é tamanha, que no espaço de um artigo, o cronista tende a se desmentir várias vezes. Mas neste caso é justificado, acho eu, por uma coisa além do vinho, além da simples descrição e adição dos organolépticos. É que o cara foi apresentado depois do Brunello e foi morto por esta ordem.

Como parêntesis já vi muito disso, e com a melhor das intenções: por exemplo, um amigo trouxe num jantar para 10 pessoas, 3 grandes crus de Bordeaux e um de Borgonha. Obviamente estamos falando de alguém que conhece e tem grandes vinhos para dar e vender. O Grand Cru do leste – um ótimo Gevrey Chambertin – foi simplesmente massacrado, particularmente porque foi servido depois dos outros e não tinha tanta concentração…dançou.

Me refiro ao Meraviglia Bolgheri, que veio depois de tudo. Como fazer?

Custa mais ou menos o que custa o Rosso, um pouco menos de R$300,00. Tem um ano de madeira francesa em barrica de 225 litros, tosta fina. É um corte de 30% Cabernet Franc, sendo o resto da outra Cabernet. Tudo que se espera de um vinho gastronômico está lá.

Por fim, agradeço à produção de petróleo que proporciona vinhos desta qualidade!

A Grecia é algo mais do que um conjunto de ilhas cercada de mitos, polvos e ouriços por todos os lados. É mais do que o berço da civilização ocidental, maior consumidora de azeite da terra e um dos povos mais longevos, pois segue a risca uma dieta cheia de grãos de moléculas longas e menos de 10% de proteína animal, seja vinda da ovelha, seja vindo da fauna marinha.

A Grécia é, cada vez mais, um mundo de vinhos feitos de uvas autóctones, a altitudes variadas, com temperaturas diversas, com solos assim e assado.

AssyrtikoDentre suas uvas particulares, uma branca se destaca, a Assyrtiko, que tem sua sede genética em Santorini, mas singra os mares entre ilhas e adentra o continente europeu.

Parece ser a única uva branca que resistiu bravamente aos ataques da Filoxera. Procura-se uma razão plausível e certamente supõem-se que o solo arenoso impediu sua aproximação, fenômeno idêntico ao de outras áreas com uvas tintas, como em Toro na Espanha, onde pés francos apresentam-se como verdadeiros  troféus de resistência.

O pulgão rasteiro não se movimenta em solo arenoso e com isso não atinge as raízes da planta. O efeito devastador foi bloqueado em Toro e em muitos outros lugares, entre eles destaco duas parcelas da Bollinger em Aÿ – produtivas até hoje – Clos Saint-Jacques e Chaudes Terres.

Pode ter sido eventualmente outra coisa: a ação dos vulcões presentes nas ilhas e ainda com alguma atividade, cujas cinzas podem ter expulsado de perto o faminto pulgão americano.

No caso deste Alpha Estate Assyrtiko, o mosto mantém-se em contato com as borras por 4 meses depois da fermentação, garantindo uma complexidade gastronômica, sem contudo perder o frescor e os perfumes peculiares garantidos pelo cuidado na colheita manual e na fermentação em cubas de aço a temperatura controlada.

Tudo isso rende muito prazer a quem pode investir em torno dos R$200,00/R$250,00 por 750ml deste nectar dos deuses.

Do outro lado da paleta de cores das uvas gregas, encontramos o mais Xinomavro significativo dos vinhos gregos tintos, o Xinomavro – comumente apelidado de o Nebbiolo Grego, porque mantém sua personalidade sem perder a similaridade com a uva italiana – a citada Nebbiolo – responsável pelo Vinho dos Reis, o Rei dos Vinhos, como é chamado cabotinamente o Barolo – o mais importante produto feito com a uva Nebbiolo – desde que recebeu a incumbência de complementar os banquetes da corte italiana em Turin, à imagem e semelhança dos Borgonhas na França e os Bordeaux na corte inglesa.

As cortes acabaram, mas a aspiração de tomar o vinho que um dia foi dos reis manteve acesa a chama comercial do Barolo, e usá-lo como referencia ao vinho grego, agrega valor, todo mundo quer conhecer o dito cujo.

Ainda mais neste caso, que se trata de um vinhas velhas de 90 anos, com 24 meses de barricas de carvalho Allier tosta fina de primeiro uso e mais um ano de garrafa antes da comercialização, um investimento que aproxima ainda mais a referencia do referido.

Moral da historia, vem tomando acima dos 94 pontos do Robert Parker, do Steven Spurrier, ano a ano.

Suas notas de degustação sempre contém frutos vermelhos, cerejas, alcaçuz e especiarias, em corpo denso com taninos aveludados.

Resta chorar pelo bolso, uma das partes mais sensíveis da nossa pobre organolepsia.

Queijos são bons. Queijos são ruins.

raduzido livremente de

JENNA BIRCH, do WASHINGTON POST
4 SET 2019

Os americanos adoram queijo. Enquanto o consumo de leite nos EUA caiu, o consumo de queijo continua aumentando ano após ano.
queijos 3De acordo com um relatório do Departamento de Agricultura de 2018, o consumo de queijo per capita aumentou para um recorde de 37,23 libras (16,9 kg).
Se você é um fã de queijo obstinado, provavelmente está consumindo sua mussarela e sua ricota (queijo italiano agora são os mais populares nos Estados Unidos) com uma ponta de culpa.
Afinal, o queijo há muito tempo é um “bad guy” por conta de seu alto
teor de gordura saturada. queijos
Pesquisas recentes sugerem, no entanto, que o problema pode ser mais complexo. Um estudo publicado em 2018 mostrou gorduras lácteas, como queijo têm efeito neutro ou positivo para o coração.
Uma análise de 2018 dos pesquisadores de Harvard concluiu que havia um “nulo ou associação inversa fraca entre consumo de laticínios e risco de doença cardiovascular “.
A revista médica Lancet descobriu produtos lácteos como o queijo, associado inclusive a um menor risco de mortalidade.
https: //www.sciencealert.com/here-s-a-scientific-ranking-of-cheeses-by-nutrition? utm_source = ScienceAlert + – + Daily + Email + Updates & utm_campaign = 939cafca … 1/6

Os Piccini estão por ai

vinhos degustados a convite da Vinci

Num passeio pela Piccini, ciceroneado pela Deborah Provenzani, Export Manager da vinícola, passei pelo Vernaccia di San Giminiano, pela linha Memoro branco, rosado, tinto e Vintage 2012; passeamos pelo Chianti Reserva, pelos dois Montalcino, pelo Mario Primo.
Meus destaques maiores foram para
– o rosado, cuja proposta é aquela que mais me atrai, vinho sem vontade de nadar em piscina ou praia. Porque sua praia é a mesa de comida, algo como um Cacciuco.
– O Vernaccia que mostra o potencial de exportação que o vinho tem, podendo concorrer em acidez e frescor, em aroma e fim de boca com qualquer neozelandês, com qualquer Pinot Grigio que tenha proposta similar.
– O Chianti Riserva, que quase não é marcado pelos característicos tons do terciário, mas que nos dá um passeio elegante pela tipicidade dos galos negros (Galli Neri).
– O Rosso di Montalcino, apesar de não valer o dobro do preço do Chianti Riserva, o vinho é o que se espera dele: concentração, estrutura, complexidade e taninos que pedem oxigênio para respirar um tempinho. Belo vinho!
Pena que não pudemos passear pela baia do Governo Toscano, uma joia da Piccini, com seu Sangiovese trasvestido de Corvina, passando por processo de secagem (passito) invernal, como se fosse um Amarone fora de lugar…