Mais um produtor argentino dentro ou fora da curva?

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Blanc de Malbec, um vinho rosé

Esta matéria começa com uma foto de uma das coisas mais excitantes que a Constantin veio oferecer, desde a sua origem na Argentina, para o consumidor brasileiro. Mas ela é apenas uma das razões, nem a única e provavelmente nem a mais importante.

Vincentin
O produtor, o representante e o importador

Numa reunião com produtor, representante comercial e importador, com direito à presença de vários dos mais importantes formadores de opinião do vinho de São Paulo, Vincentin se apresentou no Piselli, na hora do almoço, com todas honrarias que um produtor poderia ter.

A começar por um grande espumante (como ousa um argentino produzir um espumante de grande qualidade e vir vendo-lo em nossa terra varonil, disposta a representar hegemonicamente os espumantes latino-americanos?), um produto que leva a consistência e complexidade dos 70% de pinot noir, passado por madeira, e o frescor dos 30% que restam, à cargo de um chardonnay tirado do campo ainda jovem para preservar frescor e fruta.espumante Vincentin
Um espumante que segue a rota de outros que pretendem abrir uma porta no seletivo clube dos grandes espumantes europeus, até aqui quase que exclusivos dos Champagne, Franciacorta e Cavas… tirante poucas exceções importantes como um rosé do Douro inacreditavelmente bem feito que já comentei por aqui, o Murganheira. Chega com um preço acima dos R$150,00 para o consumidor final.

Há no Brasil algo de tão consistente feito em cantinas orgulhosas como a Valduga, o Geisse, o Angheben, o Maximo Boschi e alguns poucos outros, que elegem fazer um grande produto, cuja complexidade fere e trai os desígnios do mercado que sugere produtos leves e frescos para os espumantes brasileiros. Bobagem que rebaixa, mas o que fazer se vende e nosso mercado está precisando primeiro fazer crescer o bolo para depois sofisticar-se (?!).

Junto com o Vicentin Blanc de Malbec, são propostas ousadas do grupo de enólogos supervisionado pelo Paul Hobbs para a Vicentin, esta grande empresa da agro-industria argentina, que mantém 6 escritórios no país de origem, um em Assunção, um em Montevideo e um em São Paulo, além do México e EUA, para comercializar produtos como óleos vegetais, fiação e tecelagem, biodiesel, suco concentrado de uva, agroquímicos, alimento de gado, mel e vinho.

Esta lista de produtos, a grande maioria sem qualquer charme junto ao consumidor final, tem o vinho como o seu mais interessante cartão de visitas, do modo que tantas outras empresas de agro-negócio tratam o vinho. Ou seja, uma espécie de linha de frente que permite dar visibilidade para uma empresa cujo centro das atividades é mais cinzento.

Aliás, diga-se de passagem, e para o bem dos consumidores em geral, como todas as empresas atuais que mexem com agroquímico, a Vicentin se apressa a mostrar que está associada à palavra “sustentabilidade”e faz juras à defesa ambiental, antes que algum mal intencionado a veja agredindo o solo e o subsolo com sua química. Pratica política de gestão integrada, responde por princípios de direitos humanos etc.

Digo assim, a guisa de informação, porque nada disso tem a ver diretamente com a questão colocada no título, a partir do rótulo, pois os parágrafos acima servem apenas como introdução às reflexões pertinentes a este vinho dito Blanc de Malbec, quando é o mais determinado vinho rosado que se possa imaginar.

Ou melhor, tem a ver na medida que se trata de empresa madura, que sabe como se comunicar com seu público, que sabe quanto custa criar fidelidade do consumidor. Por que então chamar de branco, um vinho evidentemente rosé?

Vale dizer, aqui não se trata de questionar a qualidade do vinho, um poderoso líquido com 14,9% de álcool, de fazer muito vinho tinto se acovardar numa comparação.

Seus seis meses em madeira americana aparecem a cada gole, misturando as frutas vermelhas primárias ao chocolate terciário. Não se trata também de pensar que os enólogos responsáveis são daltônicos, até porque produzem outros tantos vinhos brancos e rosados, em sua linha Dorado, espumantes e tranquilos.

Por que então Blanc de Malbec?

Algumas hipóteses especulativas –

  1. O marketing quis vender a seu consumidor que o rosado é uma espécie de vinho branco, visto que não é tinto e os vinhos rosados não são levados a sério?
  2. A inspiração ao “blanc de malbec” está nos “blanc de rouge” presentes nos espumantes de Champagne, feitos 100% de uva Pinot Noir!
  3. acharam que a polêmica seria benéfica para o produto e para a marca como um todo (?!)

De fato, tirando vinhos como Tavel, Lyrac (Lirac), dois AOC do Vale do Rhone com regras definidas para o rosé; tirando os grandes rosados da região de Graves em Bordeaux, de Macon na Borgonha e de Bandol na Provença francesa; esquecendo os vinhos que a estes se assemelham em sua “concessão zero”ao mercado, como é o caso dos excelentes rosés da Família Bettú de Garibaldi, todos os outros pretendem ser vinhos pouco sérios, e a imagem da grande maioria dos rosados são vinhos de piscina, onde a capacidade de “Harmonização Flex” – que faz com que substitua bem tanto tintos como brancos – é desprezada em nome de uma imagem de vinho sem complicações, vinho para quem não gosta muito de vinho. Custará ao consumidor um preço em torno dos R$145,00.

O Vicentin, ao contrário, é vinho para quem gosta de vinho. Então por que?

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Na ponta mais chic do Vincentin está esta caixa para seis vinhos, Colosso, seu vinho de maior pretensão, um vinho a la Cobos, Opus One e outros parrudos feitos sob a égide do enólogo americano. Feito de carvalho de barris já não mais em uso para o vinho, com direito a rodinha e pegador, custa em torno de R$2800,00 para o consumidor. Caixa aberta VincentinCom 24 meses de madeira de primeiro uso, este blend de vários lotes de malbec, com altitudes e solo diferentes, faz lembrar os Don Melchor de cabernet sauvignon, os DV Catena Zapata. Neste caso, as vinhas entram com as seguintes percentagens: 10% Chacras de Coria (906 alt.) 33%, Las Compuertas (1100 alt.), 23%, Tupungato (1200 alt.), 34% San Carlos La Consulta (1010 alt.) .Com seus quase 15% de álcool, é macio e adocicado, denso, praticamente sem transparência, um belíssimo vinho para quem gosta de tomar o vinho harmonizado com música e conversa (deixe a comida pra lá!).

Como as seis garrafas incluídas custam um pouco menos de R$200,00 a unidade, presume-se que a caixa custe o resto…De qualquer jeito, não há como negar, bela apresentação, belo presente.

Blend de MalbecSem tanta novidade, talvez os vinhos com melhor e mais fácil penetração de mercado no Brasil – o Blend de Malbec, também apresentado em caixas exclusivas, só que de papelão, a um preço evidentemente mais convidativo – com os mesmos estonteantes 14,9% de álcool, mas com 09 meses de barrica, este blend de malbec apresenta-se mais gastronômico, com alguma acidez e presença de taninos a amadurecer. Este deve chegar ao consumidor final por seus R$120,00.

Dorado2Abaixo dele, o vinho que mais gostei, um dos da linha Dorado Blend, um vinho que trata com todo respeito a Bonarda, que entra no mix com 60% enquanto o resto fica a cargo da Malbec. Com 13,8% de álcool e apenas 6 meses de madeira de 2º uso, este vinho cumpre o que espero de um alimento líquido como este, verdadeiro companheiro do prato, para que juntos tornem a gordura da comida palatável, alimentícia mas também saudável. Belo vinho. Custará em torno dos R$80,00 para o consumidor final.

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