Mais um sobre os vinhos brasileiros

Dia desses fui à degustação organizada pela SBAV-SP com os vinhos da Guaspari, que eu já conhecia e tinha até publicado uma entrevista neste espaço

https://winecoachbr.com/vinho-paulista-no-caminho-de-minas-vinho-bao-com-sotaque-italiano-guaspari/

A casa é boa, a proposta é viável e extremamente auspiciosa. Só não entendo o discurso que, no afã de valorizar seus melhores atributos acaba por agir como se não houvesse nada de bom acontecendo no Brasil além dela.

Presentes uma das enólogas, a gerente de marketing e o casal proprietário, cujo capital é oriundo da atividade da mineradora e agronegócio que detém a holding MSP Participações.

Portanto, o romantismo produtivo mostrou-se bem calçado no sucesso da holding, o que permite um bom planejamento de marketing, uma estrutura de grandes empresas, ao contar com agrônomo inovador, enólogos campeões no mundo inteiro, incluindo o enólogo de dois projetos mundialmente famosos, homem forte da Robert Mondavi e responsável pelo Tenuta dell’Ornellaia.

Além do fator humano bem resolvido, além da infraestrutura sustentável, sem com isso querer dizer que estamos diante de empresa que segue os preceitos da produção sem defensivos agrícolas industriais e agrotóxico, temos uma geologia extremamente provada, cujas características de solo lembram muito a importantíssima Cote Rotie no Vale do Rhone norte, um dos vinhos mais prestigiados do mundo.

Com terras em altitude acima dos 1000 metros, com a inversão produtiva, a partir da técnica de dupla poda e colheita única, o que permite a colheita em época de seca, a partir de julho, o vinho pode mesmo ficar com cara de europeu, como ocorre com o excelente Syrah 100% Vista do Chá, complexo, austero, elegante, sem qualquer namoro com a compota de doces que caracteriza os Syrah do Novo Mundo.

Não a toa, plantam – além das internacionais C. Sauvignon, C. Franc, Merlot, Pinot Noir, Sauvignon Blanc, Chardonnay – Viognier, uva que ainda não resultou num vinho que possibilite comercialização.

A propósito, o Sauvignon Blanc está prontíssimo, com uma vinificação de fazer inveja aos melhores vinhos do mundo – sempre sobre borras finas, parte em aço, o que permite o realce dos aromas primários; parte em ovo de concreto, o que lhe dá estrutura e complexidade; e parte menor em botes de 600litros de carvalho, que lhe dá um toque bordolês muito interessante. Para mim, acima mesmo do Vista do Chá, é o grande produto da vinícola!

Tudo dito, e sem tirar os méritos indiscutíveis dos vinhos degustados, mais do que qualquer outro aspecto, me deixou chocado – num ambiente que se respira vinho como a SBAV – que os produtos da Guaspari fossem tratados e saudados como a salvação da lavoura brasileira, como se fosse o resgate definitivo dos bons vinhos feitos em nosso solo.

Parece até que os esforços da Miolo com Lote 43 e Merlot Terroir, por exemplo, que os vinhos da Pizzato, da Angheben, da Lidio Carraro, da Villa Francioni, do Luiz Argenta, do Boscato, do Bueno, da Pericó, dos Bettú, da Guatambu, da Perini, do Routhier/Darricarrère não existissem… Que tudo está começando em São Paulo, divisa com Minas Gerais.

Os vinhos brasileiros têm recebido altas notas, sendo que seu ápice foi no WineIn, quando 20 degustadores, dos quais 09 estrangeiros vindos da Ásia, América do Norte e Europa, elegeram dois brasileiros a frente dos badalados Clos de Los Siete, Achaval Ferrer, Errazuriz e outros mais pontuados pelos Descorchados, WineSpectator, WineEnthusiast, Wine Advocate, Decanter, Revue du Vin etc.

Que a Guaspari merece toda admiração e atenção para o terroir que descortina, não há dúvidas. Mas, por favor, menos babação de ovo, porque fica injusto com o esforço e resultados que tantos outros vêm conseguindo em solo pátrio.

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