O velho conhecido, novo desconhecido

WM

Dia desses fomos em bando ao restaurante Walter Mancini experimentar vinhos Borgogno e Fontanafredda, há tanto tempo no Brasil que passam desapercebido pela maioria dos degustadores, sempre à cata de novidades.

Abri a conversa contando como o mundo do vinho não sabe como tratar da realeza que vem do Langhe piemontês, realeza esta que vem dos meados do século XIX , quando o Barolo FontanafreddaBarolo recebeu o título italiano de Vino dei Re, Re dei vivi, que sustenta até hoje, sem muita contestação entre os italianos, sempre tão orgulhosos de suas tradições, mas sempre tão preparados para burlar-la.
Barolo BorgognoBarolos pedem paciência, Barolos pedem horas de oxigenação. Ou seja, Barolo é vinho para se tomar em casa, a não ser que a estúpida realeza nobiliárquica obrigue servir o que há de mais promissor, mesmo que o produto não sustente.
Aqui sustenta sim, como pudemos provar. Mas não se trata disso, e sim do vinho que harmoniza consigo próprio em termos comerciais, um vinho que tem preço e qualidade para ser apreciado pelos clientes dos restaurantes do mundo inteiro e não vinhos que servem principalmente como trofeus para serem apreciados.
E não se trata de demarcar realeza dos vinhos e dos seus respectivos produtores, até porque fazem parte, ambos, de um movimento renovador, que vai mexer um pouco mais nos frágeis alicerces que regem as denominações de origem italianas – o movimento Vino Libero, que nasce para aumentar o zelo pelo bom produto, sem rédeas determinadas a priori, sem defensivos agrícolas e sem herbicidas. Não leva o selo de Biológico, pois tem um selo seu, paralelo, que aparece em seus vinhos mais modernos, uma espécie de adesivo plástico, que fica flamulando no pescoço da garrafa. Vino Libero já está dando o que falar e tem como agregados produtores famosos e importantes por toda a Itália.
Mas voltemos ao mundo do concreto, para melhor falar das ideias.
RoeroComeçamos por um branco Roero Arneis Fontanafredda, com uma surpreendente complexidade, um petróleo impressionante, um vinho muito além da reles refrescância e acidez que quase sempre se espera de um branco.
Barbera d'AlbaFomos a um quase angustiante Barbera. Angustiante porque muito melhor do que a literatura genérica desta uva pode nos fazer supor. Ao contrário desmonta preconceitos, descortina horizontes para o Barbera que, aliás, tem se ampliado nos últimos anos. Este foi um dos pontos altos, mais altos da degustação.
Se soubéssemos que assim seria, teríamos degustado antes o delicado e muito bem feito NebbioloNebbiolo d’Alba in Magnum Fontanafredda, uma maravilha de vinho, mas leve demais para vir atrás de um poderoso e surpreendente Barbera como aquele.
Para fechar, dois Barolos (Baroli?!) sendo um 1997, um banho de tipicidade, genuinamente Barolo, do olhar na taça até o último gole.
Notas altíssimas para todos os vinhos, mas os convivas se derreteram sobre o belo e velho Barolo e sobre o surpreendente Barbera.
Eu, particularmente, fiquei nos menos votados – o Roero me faz pensar quanto a de se conhecer os vinhos brancos italianos e o Nebbiolo, ah, que maravilha de delicadeza e bem fazer!
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