O que queremos do vinho brasileiro

O ESTADO DA ARTE

Na última quarta feira, um grupo de degustadores que me inclui discutiu os rumos do vinho no Brasil. Entre outras características, cruzou-se, como se deve, potencial de produção em quRouthierantidade e qualidade com o desejo de consumir do mercado brasileiro.

Muito já se falou sobre isso tudo, é até meio maçante recuperar. Evidentemente nosso consumo é baixo, pode crescer e cresceu, a reparar no número de produtos que o mercado apresenta hoje e/ou a centimetragem que o vinho ocupa nos supermercados e lojas especializadas, comparados com o que se tinha 10 anos atrás.

Por duas rodadas, avaliamos alguns dos melhores tintos que se faz no Brasil. Na terceira, juntamos alguns dos sauvignon blanc de procedências e estilos totalmente diferentes mais alguns dos mais prestigiados chardonnay atuais, juntamos com um Riesling da Casa Marin e o Catena Alta. O resultado foi parecido com o que conseguimos no Wine In, em 2013, quando os brasileiros se saíram tão bem – ou até melhor – que os chilenos e argentinos.
A EXCELÊNCIA

O vinho, ah, o vinho. Quem poderia imaginar na virada do milênio que teríamos hoje estes produtos de boa a ótima qualidade vindos do centro do Brasil, gente fazendo coisa boa ou ótima na fronteira com o Uruguai? Quem poderia imaginar que o Vale São Francisco tem o potencial que tem ainda a realizar? Quem diria que os chamados Vinhos de Altitude de Sta Catarina e os do Paraná estariam dando bons passos em direção a excelência? Quem diria que em torno do Vale dos Vinhedos, Flores da Cunha, Nova Pádua, Pinto Bandeira, Caxias do Sul etc. estaríamos migrando para vinhos vitiviníferos, sem rifar os consumidores de vinhos à base de uva americana, sem deixar de incrementar a produção do suco de uva?

MariaMaria
Ou seja, não se trata mais – acredito e eu e mais uma quantidade crescente de consumidores, analistas, formadores de opinião, especialistas em geral, brasileiros ou não – de questionar o potencial do país em produzir um vinho de qualidade internacional.

Era dos ventosA IDENTIDADE
Trata-se de discutir até onde ele pode ir em qualidade, até onde ele pode ganhar um rótulo próprio e único, como foi – uma vez – o Malbec para a Argentina, o Zifandel para a Califórnia, o Pinotage para a África do Sul e outros.

Mais uma vez, o cruzamento entre potencial, preferencias naturais, condições concretas, enologia e investimento devem se cruzar com as vontades do mercado.

StoriaA uva Merlot, campeã dos grandes de Pomerol, presença obrigatória em quase toda Bordeaux, seja no Medoc, seja em St Emilion, deu-se bem na região mais concentrada de produção, o Vale dos Vinhedos.

De lá saíram alguns campeões brasileiros como o Lote 43 e o o Merlot Terroir da Miolo, o DNA99 da Pizzato, o Storia Valduga e outros. merlot LA

O GOSTO, O BOLSO, A ESCALA

Muito sempre se disse sobre o gosto brasileiro – ah, façamos um vinho mais docinho, que este é o gosto brasileiro. Puro mito, eu acho. Vinho docinho é a expressão da falta de cultura de vinho, parece ser o vinho de entrada para todo individuo desacostumado com o complexo gosto do vinho. Angheben PinotSe o ácido avinagrado aparece em primeiro lugar, a reprovação é grande. Se o fim do gole não é redondo e macio, a reprovação é igualmente grande.

Comendador Villa FrancioniPara entrar no mundo do vinho, o mercado, seguindo os passos dos produtores como a gigante Gallo norteamericana, que implantou um gosto que provocasse menos reações negativas, mais próximo do grande dulçor dos sucos de fruta e mesmo de refrigerantes, pois o novo consumidor norteamericano – o Babyboomer, nascido no pós-guerra – conseguiu equilibrar o gosto por estas bebidas açucaradas com alguma cultura trazida pelos seus pais, que passaram alguns poucos anos na Europa a lutar contra o nazi-fascismo. GalloGanharam a guerra e trouxeram para casa o gosto pelo vinho. Moral da historia – os americanos hoje consomem 10l/ano, tornando-se o principal consumidor do mundo, visto que sua base estatística é muito superior a dos países que consomem mais de 30l/ano (300 milhões de habitantes contra 50 milhões no máximo).

DNA99O Brasil não. Os Brasis. Não se pode impor um estilo gaúcho ao centro do país, cujas condições climáticas e de solo são tão diferentes como dá para ser diferentes, seja em temperatura, seja em ritmo, seja em espectro térmico, seja em solo… Seja em tudo.

Não se pode impor à parte da Campanha gaúcha, os vinhos de altitude de Sta Catarina pelas mesmas razões, assim como vale o raciocínio até para o que ocorre em torno do próprio Vale dos Vinhedos, a região que concentra o grosso da produção, da tradição e da cultura do vinho.

Ai nos vemos nas grandes encruzilhadas. Aquele terreno mostra-se bom para Cabernet FrancCabernet Franc. Basta isso para voltarmos a produção majoritária desta uva? E o mercado como vai reagir? E o investimento em educação, propaganda e ações de marketing é suportável por esta industria frágil e comprometida com impostos penalizadores?

E o Gamay, que seria uva boa de se tomar mais fresco, vinhos de menos concentração, teria boa aceitação a ponto de ser a nossa cara internacional, “jovem, alegre, cheia de otimismo”? O Gamay vai bem? A Miolo tem uma longa experiência, é preciso perguntar para os Adrianos o que acham. A Aurora vem apostando nos Pinot Noir há tantos anos, não posso garantir que sempre com o mesmo apuro necessário. Mas desde Pinto Bandeira, o projeto é crescente e animador.

E os brancos, desde o Riesling Itálico e os Moscatos que se notabilizaram pelos internacionais Moet&Chandon e Martini, até os fantásticos Semillon da Pizzato, os Sauvignon Blanc da Guaspari, o Gewurzstraminer da Cordilheira de Sant’Ana, o Peverella da Era dos Ventos e tantos outros que estão ai para serem degustados.

Paradoxo SaltonA Perini, a Salton e outros estão apostando no mercado internacional com vinhos de entrada, baratos, jovens, refrescantes, tintos, brancos e rosados. É isso?

O mercado vai criando seus nichos, como o de vinho sem madeira, como o de biodinâmicos, biológicos, veganos, naturais, com leveduras selvagens. O Brasil tem alguns produtos como estes e o segmento deve crescer acompanhando tendências mundiais.

O QUE SE PRECISA

Queria participar de um centro de estudos do vinho (mais uma vez) para tudo provar, para promover palestras, para discutir as questões candentes, as experiências fora da curva, para ouvir os mestres do vinho e seus detratores. Um centro que sugerisse e planejasse desde a construção da planta das novas vinícolas, até o que eles deveriam colocar no mercado, em comunhão com todos os outros consultores, da Embrapa e de outras entidades de fomento da enologia, da engenharia agrícola, mas também de pesquisa, análise e tendências.

Entidades como a Ibravin e ABE só podem ser – no máximo – avalistas de projeto como este, pois são chapa branca demais, fogem de tudo que possa contradizer os produtores que as financiam.

Porque era preciso uma coisa externa e independente, que caminhasse para um Centro de Pesquisa, com gente de biologia, engenharia de alimentos, geologia, centro de imagens, agronomia etc. Nada contra ao que se tem em Caxias do Sul mais voltado para a degustação, mas um centro que ajudasse a construir indicadores, elaborando mapas que ajudem a orientar a consolidação do vinho nacional, algo que pulsasse junto a todos os setores vinculados ao negocio do vinho, da planta ao mercado.

Para a idoneidade e a massa crítica necessária para a sugerida interdisciplinaridade, seria mais adequado endereçar à USP ou Unicamp esse tipo de sugestão. Uma delegação pra conversar com os reitores pode funcionar.

Esta delegação precisaria ser formada por gente de pesquisa em geral, por enólogos consagrados, por especialistas com notório saber em alguns dos ramos interdisciplinares, por representantes da cadeia de produção e circulação, por formadores de opinião, sommeliers e outros interessados.

PS – esta não é a primeira vez que reflito e caminho neste sentido. O WineIn de 2013 começou a amadurecer na USP, no Instituto de Estudos Avançados, no Observatório da Inovação e Competitividade anos antes. Ano passado lancei no Facebook um caminho similar.

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Um comentário em “O que queremos do vinho brasileiro

  1. Bela aula.

    “Muito sempre se disse sobre o gosto brasileiro – ah, façamos um vinho mais docinho, que este é o gosto brasileiro. Puro mito, eu acho. Vinho docinho é a expressão da falta de cultura de vinho, parece ser o vinho de entrada para todo individuo desacostumado com o complexo gosto do vinho. Se o ácido avinagrado aparece em primeiro lugar, a reprovação é grande. Se o fim do gole não é redondo e macio, a reprovação é igualmente grande.”: mais docinho é o cú da mãe de quem engoliu.

    ” … jovem, alegre, cheia de otimismo” é fanta uva com pepsi-cola e guaraná taí.

    Taí, se ganhasse numa mega bem acumulada, sozinho, te daria algum pra montares um CERVI, Centro de Estudos Registrados do Vinho.

    Mas que beleza de nome e rótulo esse Era dos Ventos! Tomara que seja uma maravilha.

    Era dos Ventos, dá vontade de belo romance sobre a mente brasileira que só vai onde o vento sopra. Mas é um título muito bonito pra sujá-lo com nossa mediocridade.

    Um pouco de boa vontade, para um analfabeto em uva como eu, explicando um pouco o que é cada uva citada. Mas bela aula não importa a taça.

    Se bem que Va Sa tem alguma gota de competitividade gibsoniana que não gosta de algum alento que não seja completamente favorável.

    Bela aula não importa a taça.

    Mas que puta nome feliz: Era dos Ventos. Muito caro esse branco?

    Beijo

    Un cordon l’eau

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