Os vinhos nascem do petróleo?

Vindo das profundezas mais profundas, a negra mão do capitalismo, a fonte de lucro das 7 irmãs, a mais lucrativa das matérias primas desde a segunda revolução industrial, o petróleo é finito, polui, deixa o ar fedido e é do mal… cada vez mais.
Mas, e não pela primeira vez na história, nasce deste mal um bem gerado por quem o possui.

BULGHERONIAlejandro Bulgheroni, além de ter investimentos no ramo do petróleo no México, Argentina e outros, faz um Blend de vinícolas norte-americanas, argentinas, uruguaias e agora italianas, com a compra recente de três casas toscanas a partir de 2012, a Chianti Dievoli, e a homônima montalcina e agora a Meraviglia de Bolgheri.

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em Bolgheri, com as costas para a montanha, com o nariz para a Córsega

Blend que ficou ainda mais famosa depois do grande prêmio conquistado pela Garzon, braço uruguaio da holding, como a mais interessante vinícola do mundo na Critic’sChoice Awards 2018, seja pela ousadia no relacionamento com os amantes de seus vinhos, seja como investimento, seja ainda como vinícola produtora de vinhos TOP que respeitam a sustentabilidade do ambiente em todos os níveis.GArzon Balastro

Bulgheroni mostra o tempo inteiro que não está para brincadeira, não está nem um pouco afim de ficar queimando dinheiro bom do velho combustível fóssil com esta novidade que nasceu apenas a 5 mil anos, o vinho. Ele ganha dinheiro, porque entendeu a essência do negócio, e parece que nunca deixou de entender. Como diz um artigo da GamberoRosso – quem sabe a mais antiga e prestigiada certificadora de vinho da Itália – dar-se o nome de Meraviglia à vinícola de Bolgari recém adquirida é assumir para si que é possível fazer o máximo na região, por mais que ela esteja impregnada de grandes produtores de excelência engarrafada. Com vista que domina a campanha de Bolgari, virgem de defensivos agrícolas e com alcance que nos leva até as montanhas da Córsega, a vinícola já disse a que veio, do ponto de vista de seus produtos de primeira qualidade.
Mas não vai ficar por aí, porque o que vai ser em 2022 vai reunir wineshop com sala de degustação de 120 m² e uma estrutura de ambientação da experiência vínica, como em todas outras vinícolas do grupo, aliás. Trata-se de investimento da ordem de 12 milhões de euros (cerca de R$55 milhões).

OS VINHOS – 20190926_174211Mas nós viemos aqui para refletir sobre a economia que transforma combustível de maquinário em combustível de prazer ao corpo humano, ou para falar de vinho, este produto que quase nunca sabe manter seus amantes satisfeitos, que logo tem pensamentos infiéis à menor aparição de um rótulo novo?

Na degustação o que me agradou mais de todos é um produto menos importante, menos trabalhado, menos caro, aquele que quase cabe no meu bolso, falta só custar 2/3 mais barato!

É do Brizio Rosso di Montalcino que estou falando… ele passa por 12 meses de tonéis de 5400 litros de carvalho francês sem tostagem, marca do enólogo Alberto Antonini, o cara que se consagrou na Garzon.

Mas falo também, é o vinho que se quer à mesa, quando se trata de harmonizar com alguma comida mais suculenta, carente de uma acidez para complementar, uns taninos elegantes.

Sim, sim, está bem _ senti os identitários, as frutas vermelhas maduras, a cereja e morango, as especiarias, particularmente a pimenta do reino. Mas JAMAIS recomendo um vinho porque ele cheira a compota. Indico porque ele atende a expectativa, porque ele é uma expressão correta de um determinado vinho de uma determinada região. Pois este é um autêntico Rosso di Montalcino, só que mais elegante do que normalmente costumam ser.
Mas depois veio o irmão mais velho dele para a taça, muito tudo, madeira, concentração, compota de tudo aquilo que tem no Rosso, mas multiplicado a enésima vez, tornando-se, no meu entender, um vinho enjoativo à segunda taça, fruto 4 anos de madeira, exigência da Denominação que quer manter este padrão de vinhos clássicos.

Numa versão custa mais de R$650, na outra, quase R$1000.

Ai, tiro da manga a valorosa reflexão do Slowfoodista di Bergamo, Luigi Veronelli, o primeiro grande pensador do mercado odierno de vinho – Estes aí me trarão 3 e 5 vezes mais prazer que o Rosso di Montalcino? Não, certamente não. Eu sei que encho o saco de quem adora aqueles vinhos sem qualquer transparência, com muitíssimo álcool e nenhuma preocupação em ser gastronômico, levando a consequências desagradáveis o que se fazia antigamente. Afinal, afinar um vinho com madeira exagerada era o recurso que se tinha para cumprir a malolática, usar de madeira em toneis que respiravam/oxigenavam o produto, numa espécie de processo constante. Mesmo assim, o bom Barolo, com 36 meses de madeira e ao menos 24 meses de garrafa, ainda precisava de uma boa hora e meia respirando na taça, na jarra ou no decanter…

Mas então, fui levado a degustar o grande vinho da tarde.

Ué, mas eu não disse que o que agradou mais foi o Rosso di Montalcino? Em matéria de vinho, a infidelidade é tamanha, que no espaço de um artigo, o cronista tende a se desmentir várias vezes. Mas neste caso é justificado, acho eu, por uma coisa além do vinho, além da simples descrição e adição dos organolépticos. É que o cara foi apresentado depois do Brunello e foi morto por esta ordem.

Como parêntesis já vi muito disso, e com a melhor das intenções: por exemplo, um amigo trouxe num jantar para 10 pessoas, 3 grandes crus de Bordeaux e um de Borgonha. Obviamente estamos falando de alguém que conhece e tem grandes vinhos para dar e vender. O Grand Cru do leste – um ótimo Gevrey Chambertin – foi simplesmente massacrado, particularmente porque foi servido depois dos outros e não tinha tanta concentração…dançou.

Me refiro ao Meraviglia Bolgheri, que veio depois de tudo. Como fazer?

Custa mais ou menos o que custa o Rosso, um pouco menos de R$300,00. Tem um ano de madeira francesa em barrica de 225 litros, tosta fina. É um corte de 30% Cabernet Franc, sendo o resto da outra Cabernet. Tudo que se espera de um vinho gastronômico está lá.

Por fim, agradeço à produção de petróleo que proporciona vinhos desta qualidade!

A Grecia é algo mais do que um conjunto de ilhas cercada de mitos, polvos e ouriços por todos os lados. É mais do que o berço da civilização ocidental, maior consumidora de azeite da terra e um dos povos mais longevos, pois segue a risca uma dieta cheia de grãos de moléculas longas e menos de 10% de proteína animal, seja vinda da ovelha, seja vindo da fauna marinha.

A Grécia é, cada vez mais, um mundo de vinhos feitos de uvas autóctones, a altitudes variadas, com temperaturas diversas, com solos assim e assado.

AssyrtikoDentre suas uvas particulares, uma branca se destaca, a Assyrtiko, que tem sua sede genética em Santorini, mas singra os mares entre ilhas e adentra o continente europeu.

Parece ser a única uva branca que resistiu bravamente aos ataques da Filoxera. Procura-se uma razão plausível e certamente supõem-se que o solo arenoso impediu sua aproximação, fenômeno idêntico ao de outras áreas com uvas tintas, como em Toro na Espanha, onde pés francos apresentam-se como verdadeiros  troféus de resistência.

O pulgão rasteiro não se movimenta em solo arenoso e com isso não atinge as raízes da planta. O efeito devastador foi bloqueado em Toro e em muitos outros lugares, entre eles destaco duas parcelas da Bollinger em Aÿ – produtivas até hoje – Clos Saint-Jacques e Chaudes Terres.

Pode ter sido eventualmente outra coisa: a ação dos vulcões presentes nas ilhas e ainda com alguma atividade, cujas cinzas podem ter expulsado de perto o faminto pulgão americano.

No caso deste Alpha Estate Assyrtiko, o mosto mantém-se em contato com as borras por 4 meses depois da fermentação, garantindo uma complexidade gastronômica, sem contudo perder o frescor e os perfumes peculiares garantidos pelo cuidado na colheita manual e na fermentação em cubas de aço a temperatura controlada.

Tudo isso rende muito prazer a quem pode investir em torno dos R$200,00/R$250,00 por 750ml deste nectar dos deuses.

Do outro lado da paleta de cores das uvas gregas, encontramos o mais Xinomavro significativo dos vinhos gregos tintos, o Xinomavro – comumente apelidado de o Nebbiolo Grego, porque mantém sua personalidade sem perder a similaridade com a uva italiana – a citada Nebbiolo – responsável pelo Vinho dos Reis, o Rei dos Vinhos, como é chamado cabotinamente o Barolo – o mais importante produto feito com a uva Nebbiolo – desde que recebeu a incumbência de complementar os banquetes da corte italiana em Turin, à imagem e semelhança dos Borgonhas na França e os Bordeaux na corte inglesa.

As cortes acabaram, mas a aspiração de tomar o vinho que um dia foi dos reis manteve acesa a chama comercial do Barolo, e usá-lo como referencia ao vinho grego, agrega valor, todo mundo quer conhecer o dito cujo.

Ainda mais neste caso, que se trata de um vinhas velhas de 90 anos, com 24 meses de barricas de carvalho Allier tosta fina de primeiro uso e mais um ano de garrafa antes da comercialização, um investimento que aproxima ainda mais a referencia do referido.

Moral da historia, vem tomando acima dos 94 pontos do Robert Parker, do Steven Spurrier, ano a ano.

Suas notas de degustação sempre contém frutos vermelhos, cerejas, alcaçuz e especiarias, em corpo denso com taninos aveludados.

Resta chorar pelo bolso, uma das partes mais sensíveis da nossa pobre organolepsia.

Queijos são bons. Queijos são ruins.

raduzido livremente de

JENNA BIRCH, do WASHINGTON POST
4 SET 2019

Os americanos adoram queijo. Enquanto o consumo de leite nos EUA caiu, o consumo de queijo continua aumentando ano após ano.
queijos 3De acordo com um relatório do Departamento de Agricultura de 2018, o consumo de queijo per capita aumentou para um recorde de 37,23 libras (16,9 kg).
Se você é um fã de queijo obstinado, provavelmente está consumindo sua mussarela e sua ricota (queijo italiano agora são os mais populares nos Estados Unidos) com uma ponta de culpa.
Afinal, o queijo há muito tempo é um “bad guy” por conta de seu alto
teor de gordura saturada. queijos
Pesquisas recentes sugerem, no entanto, que o problema pode ser mais complexo. Um estudo publicado em 2018 mostrou gorduras lácteas, como queijo têm efeito neutro ou positivo para o coração.
Uma análise de 2018 dos pesquisadores de Harvard concluiu que havia um “nulo ou associação inversa fraca entre consumo de laticínios e risco de doença cardiovascular “.
A revista médica Lancet descobriu produtos lácteos como o queijo, associado inclusive a um menor risco de mortalidade.
https: //www.sciencealert.com/here-s-a-scientific-ranking-of-cheeses-by-nutrition? utm_source = ScienceAlert + – + Daily + Email + Updates & utm_campaign = 939cafca … 1/6

Os Piccini estão por ai

vinhos degustados a convite da Vinci

Num passeio pela Piccini, ciceroneado pela Deborah Provenzani, Export Manager da vinícola, passei pelo Vernaccia di San Giminiano, pela linha Memoro branco, rosado, tinto e Vintage 2012; passeamos pelo Chianti Reserva, pelos dois Montalcino, pelo Mario Primo.
Meus destaques maiores foram para
– o rosado, cuja proposta é aquela que mais me atrai, vinho sem vontade de nadar em piscina ou praia. Porque sua praia é a mesa de comida, algo como um Cacciuco.
– O Vernaccia que mostra o potencial de exportação que o vinho tem, podendo concorrer em acidez e frescor, em aroma e fim de boca com qualquer neozelandês, com qualquer Pinot Grigio que tenha proposta similar.
– O Chianti Riserva, que quase não é marcado pelos característicos tons do terciário, mas que nos dá um passeio elegante pela tipicidade dos galos negros (Galli Neri).
– O Rosso di Montalcino, apesar de não valer o dobro do preço do Chianti Riserva, o vinho é o que se espera dele: concentração, estrutura, complexidade e taninos que pedem oxigênio para respirar um tempinho. Belo vinho!
Pena que não pudemos passear pela baia do Governo Toscano, uma joia da Piccini, com seu Sangiovese trasvestido de Corvina, passando por processo de secagem (passito) invernal, como se fosse um Amarone fora de lugar…

Esta é uma historia que precisa ser mais ou menos bem contada, porque lida com um preconceito enraizado na mente da Inteligentia dos que lidam com gastronomia no Brasil.

O vinho se consolida como produto para o brasileiro, mas o vinho feito por aqui ainda encontra certas resistências.

De fato, duas pequenas coisas importunam a historia do vinho brasileiro: a qualidade e o preço…só essas duas coisinhas!!!

Também pudera, esta historia nasceu pelas mãos de gente que produziu para o seu próprio consumo, imigrantes que mal haviam se instalado vindos principalmente do vêneto italiano. Faziam vinho sem conhecimento acadêmico, faziam porque era esta a cultura, tentavam reproduzir aqui o que sempre fizeram em suas terras de origem, em quase 100% dos casos.

Nestes 100 anos de existência, no mais das vezes concentrado no Rio Grande do Sul, na região que vai de Flores da Cunha até Bento Gonçalves – com exceções como São Roque em SP e os brancos Goethe próximo a Florianópolis – o vinho era feito principalmente de uva de mesa, mais apropriada para o consumo in natura ou para suco. Vinhos vendidos em garrafões de 5 litros, muitas vezes adocicados com açúcar de cana.

Quando não, feitos de uvas viníferas europeias, eram irregulares demais – um ano bom por conta da seca em época de colheita, cinco anos ruins por conta do alto índice pluviométrico que aguava as frutas já maduras… outro ano mais ou menos, seguido de mais cinco ruins…Assim não havia incentivo à boa produção, por mais que os anos bons tenham produzido vinhos que entraram para a historia, vinhos como comprovam o Velho do Museu, Dal Pizzol, Chateau Lacave, Granja União e outros que puderam mostrar como o vinho da região tinha lá seu potencial.
Potencial este, por sinal, detectado pela Universidade da Califórnia Davis, a UCDavis, a principal escola de agronomia dos EUA, a única escola pública que se mantém entre as 10 melhores do mundo, que em 1970 sugeriu a produção de uvas para vinho no paralelo 41, na Campanha gaúcha, resultando na implantação da gigante americana Almaden, assim incentivando a vinda de outras multinacionais do vinho como a Moet Chandon francesa e a Martini&Rossi italiana, a primeira num projeto grandioso que envolveu Mendoza argentina, a Califórnia americana e Vale dos Vinhedos gaúcha.

A italiana veio com propósitos firmes de fazer no Brasil um polo de produção a partir da Moscatel a partir do método Asti de espumantes, que interrompe a fermentação da uva por choque térmico quando ela atinge os 7% de álcool, restando grande residual de açúcar no vinho, agradando a quem gosta de bebida mais doce.

1990

Passados os anos, o amadurecimento desta promissora agroindústria e procura de novos consumidores começa de fato em torno dos anos 1990, com investimentos em nova tecnologia, desde a compra de mudas escolhidas de uvas importantes, até a implantação de técnicas que privilegiam a qualidade e não a quantidade, seguindo os princípios da década anterior que vinham transformando radicalmente a produção europeia e do Novo Mundo, tendo a liderança da Austrália e dos EUA neste processo de renovação.

No Chile e na Argentina, a presença de técnicos modernos como o famoso Michel Rolland foi decisiva para o novo vinho do Novo Mundo.

No Brasil, os seguidores foram se fazendo notar, com gente como Mario Geisse, Idalêncio Angheben – nosso decano da enologia – e Adolfo Lona prestando consultoria para várias empresas que queriam migrar para este novo mercado, que era de um vinho muito diferente daquele que se produzia e se consumia por aqui até então.

2010

Dando um salto de mais de 20 anos nesta historinha e chegando aos dias de hoje, tanta coisa mudou, a começar pelas cidades, que mudaram muito, perderam a característica primeira das cidades reserva de mercado de trabalho, tornaram-se megacentros do setor de serviços, causando grandes transformações do ponto de vista dos costumes.

Aquele vinho de garrafão servido em copo americano que os diaristas da indústria tomavam de pé nos bares enquanto esperavam a marmita esquentar em torno das fábricas de Sto Amaro e Lapa não existem mais.

A cidade foi recheada de gente que tem atividade de escritório, as contradições se sofisticaram, é gente que está ligada em questões que passam ao largo das questões do enfrentamento direto entre o capital e o trabalho. São Paulo, por exemplo, criou uma indústria de turismo empresarial e diversão que movimenta um número de mais de 15 milhões de pessoas/ano, em boa parte estrangeiros, em boa parte consumidores de vinho…

Muita coisa mudou neste comércio. Hoje em dia, os supermercados têm um equipamento que garante a conservação, ao contrário do que acontecia até 10 anos atrás, quando o vinho recebia o mesmo tratamento dos enlatados.
As gôndolas voltadas para este produto cresceram e se multiplicaram.

As importações dos vinhos – ao contrário do que muito pensam – impulsionou o mercado em geral, levando o vinho brasileiro de roldão para um ponto superior, pois mesmo perdendo fatia percentual do bolo anterior, ganhou boa musculatura em números absolutos.

Gente que amava vinho, mas não tinha nada a ver com este departamento da economia – a não ser do ponto de vista do consumo – decidiu investir dinheiro e competir. Foi o caso dos donos da Cecrisa/Porbelo que investiram um bom dinheiro bom vindo da cerâmica, para construir a ótima vinícola Vila Francioni em São Joaquim, abrindo espaço para a Pericó, pertencente ao grupo Malwee de tecelagem…O mesmo para o grupo Randon que se uniu à Miolo para seus vinhos RAR. O mesmo para o locutor Galvão Bueno, que fez caminho similar e montou a sua Bueno. O mesmo se pode dizer da Routhier&Darricarrere ligada à maior empresa de cítricos da América Latina, a Citrosul… O mesmo para a gigante em genética animal, Guatambu, que resolveu fazer vinho também. O mesmo para a Luiz Argenta, que comprou a terra onde um dia foi a pioneira Granja União em Flores da Cunha, cujo acumulação do capital veio de uma poderosa rede de postos de gasolina. O mesmo para a mineradora da família Guaspari, que agora produz um dos vinhos mais bem avaliados do mercado.
Dinheiro bom em negócio ruim? Onde já se viu empresários bem-sucedidos jogar dinheiro fora?

Na outra ponta, pequenas vinícolas investiram em treinamento, maquinaria e cultura, tornando a produção algo muito mais sério.

Os velhos players evoluíram, passaram a produzir com muito mais qualidade e tecnologia. Cito só de passagem a Valduga, a Miolo, a Perini, a Aurora, a Salton, quase todas constituintes de um capital primitivo muito aquém do que fazem hoje. A Aurora, a maior do Brasil, especializada nos vinhos de uva americana, faz – desde a virada do milênio um Cabernet Sauvignon, o MIllesime, de bela estrutura e bom preço. Em Pinto Bandeira, faz dos melhores chardonnays e pinot noir do país. A Miolo tem a melhor variedade de produtos e presença em quase todas as regiões produtivas do país.

A Salton, que conseguiu sair do buraco graças à força do Angelo Salton e seu conhaque (?) Presidente, faz, além dos premiados Desejo e Talento, alguns espumantes que não param de surpreender, como o Aziz que acaba de ganhar uma degustação as cegas que liderei, tendo presença de pesos pesados como a champagne da rainha da Inglaterra Lanson e um Franciacorta, além de um Geisse e do Vertigo da Pizzato.

A Perini que criou um braço de uvas viníferas para exportação, faz vinhos para o mercado norte-americano de boa aceitação e, com ótima consultoria enológica tem vencido provas importantes com seus tintos, brancos e espumantes.

Sem contar com empresas que passaram a ter seus próprios rótulos, incentivados pelo horizonte otimista que se fez, como é o caso da Vallontano, da Anghebem, da Lidio Carraro, da Pizzato, do Maximo Boschi e tantas outras que merecem citação.
É que o preço e a qualidade dos produtos que se fazia aqui foram se mostrando competitivos, e isto já estava mais do que provado em 2013, quando tive a oportunidade de liderar uma degustação de vinhos brasileiros, argentinos e chilenos com especialistas que vieram de toda parte do mundo para garantir a idoneidade da prova. Nela os nossos produtos passaram nas provas de preço e qualidade mostrando que são tão bons ou as vezes melhores que vinhos altamente conceituados, como, só para dar exemplos, Clos de Los Siete, Errazuris e Achaval Ferrer.

As desvantagens comerciais vis-a-vis os produtores vizinhos, beneficiados pelos acordos do Mercosul; depois de tantas provas ganhas mundo afora, provas que envolvem milhares de produtores do mundo inteiro com a presença dos mais idôneos e experientes degustadores; no momento em que os acordos entre a Europa e o Mercosul estão para sair do papel e se tornarem realidades.

Neste momento, considerando tudo dito, a consagração do vinho brasileiro está vindo a cavalo. Nas provas importantes da Bélgica e da Inglaterra, vinhos do Rio Grande do Sul, de Sta Catarina, de São Paulo, em várias categorias, estão se mostrando excelentes, muitas vezes levando os maiores prêmios.

Hoje em dia, os vinhos brasileiros já aparecem no anuário Descorchados do Patricio Tapia, que a 21 anos reúne o melhor dos vinhos da América Latina. Ocupa 80 das 1200 páginas do guia, o que não é pouco, se considerarmos que não havia massa crítica para participar até poucos anos atrás.
Guatambu, Guaspari, Valduga, Monte Paschoal, Geisse, Maximo Boschi, Peterlongo, Domno, Estrelas do Brasil, Miolo, Luiz Argenta, Pizzato, Via Piana, Serena, Perini, Leoni de Venezia, Quinta da Figueira e tantos outros ganharam destaque, com notas sempre acima dos 90 pontos em 100 possíveis.

Outros se destacaram na Decanter World Wine Award 2018. A Decanter é a mais prestigiada revista do mundo do vinho. Sua seleção reúne 275 jurados, que julgam quase 17 mil rótulos vindos de 61 países produtores. Os maiores prêmios foram divididos entre os franceses e italianos, 12 e 5 respectivamente, entre os 50 melhores do mundo.

O Brasil se apresentou bem, ganhando várias medalhas de ouro com Peterlongo, Valduga, Guaspari, Salton, Domno, Miolo e Perini.

Os vinhos brasileiros estão na Ásia e nos EUA, na Polônia e na Alemanha. Estão obviamente mais presentes em países com tradição de importação do que de produção, onde os habitantes estão acostumados a tomar os vinhos que produz.

Estão atingindo boas marcas, mesmo quando a produção não é de grande escala, mas a presença dos maiores entre os mais premiados é também significativa do investimento em modernização e diversificação que se está vivendo.

De uma produção folclórica e irregular, com um consumidor local e de baixa renda, o vinho brasileiro tornou-se competitivo em praticamente todas as frentes. Superou barreiras tecnológicas, climáticas, antropológicas, regionais. É produzido em cinco regiões diferentes, diversificando seu perfil, possibilitando grande gama de alternativas em uvas e vinificação.

QUANTO ÀS INDICAÇÕES DE ORIGEM – uma tomada de posição sobre DOC e outras regras

E assim as regiões produtoras vão se especializando em cepas. Com os prêmios ao Tannat Guatambu, que reforçam a vocação da região, detectada desde o Vinhas Velhas Almaden; com a vocação para Syrah entre os vinhos de inverno de SP e MG e com a já reconhecida e consagrada vocação ao Cabernet Franc e ao Merlot do Vale dos vinhedos vão se solidificando certas tendências, sem que se precise engessar em IGTs cada uma delas.

Pois foi em Garibaldi que se deu o Nebiollo Bettu, em Flores o Serena PN; em Rosário do Sul o Routhier&Darricarrere Cabernet Sauvignon; foi na Campanha de cá que se deu o Castas Portuguesas Miolo…Não somos a França que tem tradição a defender, cepas em extinção a preservar, mercados constituídos com expectativas a cumprir.

Por estas razões as Denominações de Origem e suas regras de procedimento permitiram o desenvolvimento de muitas regiões.

Aqui não temos passado a defender, ao contrário, temos apenas futuro a consolidar.
Determinar que um vinho é de tal região apenas quando atinge determinados níveis de concentração de álcool, quando se utiliza apenas de uvas cultivadas na região determinada, em nome da qualidade, OK.
Além disso é gesso, é tiro no pé.

Pela Itália no pátio da minha casa

os vinhos da noite
Pizzato Brut RoséAsprino di Aversa DOC Tenuta Fontana – Barbera D’Asti Superiore Solerita – Ripasso di Valpolicella 2014 Costa Mediana – Barolo DOCG Serradenari Menzione Geografica Aggiuntiva Giula Negri – Campania Aglianico IGT Tenuta Fontana

Tudo deu certo, os investidores, os vinhos e a comida investida, o clima (Weather), o clima (friendship) e o clima (reflexions, details ecc. ).

A idéia era aproveitar meu ataque de humildade, aquele que me acomete toda vez que vou visitar coisas que não conheço no mundo do vinho e descubro que estou tão longe de atingir a meta do completo conhecimento quanto o arqueiro que pretende atingir a lua com sua flecha, como dita a velha historinha chinesa contada em círculo de gente que luta.

Imagine só, não conhecia nada sobre o Asprino di Aversa, uma uva autóctone de bago branco da região de Nápoles, usada como barreira de proteção contra os inimigos dos Bourbon, diz a lenda. As vezes cultivada ainda em arbusto, chega a ter mais de 15 metros de altura e não foi dizimada pela filoxera, apresentando, ainda hoje, plantas com 200 anos de idade a todo vapor vegetal.

Para ornar a degustação, entradas italianas, entre berinjelas, pimentões sott’oleo, Sals Ver (molho piemontês que reune pão molho em vinagre, salsinha de montão, um pouco de alho, azeite e anchovas) com salsão e cenouras…

Como primeiro prato, um macarrão que deixou a moçada tonta, do visual ao nariz, deste à boca: o molho de inspiração no Cacciuco livornês, com peixe de rocha, mexilhão, camarão grelhado, lula com a sua tinta, tomate e cebolinhas inteiros grelhados. No serviço, cada elemento ocupando a parte externa do prato, tendo o macarrão no centro do todo. A tinta sujou o prato, mas a sujeira limpou, o prato ficou de se comer de joelhos.

Como segundo um stracotto que ninguém supera, só pode fazer tão bom, melhor não vale. Maminha que depois de selada em cebola e alho na manteiga escura, recebeu uma garrafa de vinho branco para evaporar rapidamente e depois uma garrafa de vinho tinto para ficar conversando pelas 12 horas seguintes, à velocidade mais baixa que o forno elétrico pode fornecer, algo em torno dos 60ºC/70ºC. Depois de tanto andar devagar, ficou despedaçante, tão bom quanto a do Santo Colomba, que me inspirou. Para acompanhar, um purê de pinhão e batatas ao murro, enfeitadas com pedaços mínimos de toucinho assado.

Desta vez, nada de tanta pompa e circunstancia para avaliar os vinhos. Normalmente fazemos avaliação vinho a vinho com duas degustações às cegas, a primeira sem e a segunda com comida.

Aqui não havia porque comparar assim, servidos que estavam bananas e maçãs, ou seja, coisas que não se comparam, um Barolo e um Ripasso, um Aglianico e um Barbera…não há termos de comparação, a não ser maior ou menor afinidade com aquele resultado palativo. Sim, poderia haver sim defeitos perceptíveis, como um cheiro de estábulo que nos remetesse a um problema de higiene etc. Mas não era o caso, não havia o que comparar.

Diferente são os casos que em que os vinhos pretendem atingir um resultado similar, a partir, por exemplo, do uso da mesma uva, mesmo que de clones diferentes. Ou então vinhos da mesma região, submetidos a um mesmo tratamento de solo e clima. Aqui não, aqui não.

COMENTÁRIOS SOBRE OS VINHOS

Harmonização garantida, desde o começo, pois seja o macarrão – cujo tempero levava vinho branco, frutos do mar grelhados no alho picado e vinho branco – seja a carne – que tinha o vinho tinto e o salsão como principais complementos de sabor – não eram em nada difíceis de harmonizar. E, como havia vários vinhos na mesa, não deu tempo sequer para enjoar dos mais novos. Alguém estranhou o forte sabor sem grandes nuances do Barolo, não por acaso, alguém mais acostumado a vinhos andinos. Alguém descartou a importância do tinto napolitano, mas pareceu unânime a aprovação por todos.

Como sugeriu um dos participantes, todos os vinhos mereciam nota alta, a degustação foi um sucesso no quesito vinho.

Tenuta Fontana, Civico 44, Asprinio di Aversa – Fermentação e maturação em aço por seis meses sobre as borras finas. 12,5% de álcool. Cítrico, maçã, pêssego, pétala de flor branca. Acidez intensa, seco, refrescante.
Vinho que complementa a degustação dos brancos italianos, mesmo sendo um português, cuja principal característica é não ser nada amistoso. Vinho ascético, sem qualquer divertimento frutado, na boca ou no nariz. Ótimo para a gastronomia, péssimo para bebericar.ΩΩΩΩ
Mais uma oportunidade do Pizzato Rosé Brut mostrar que os espumantes brasileiros estão num nível além do internacional. Sem esta bobagem de um vinho mais brasileiro, ou seja, menos encorpado, menos importante, rivalizando com prosseccos e quetais. Espumante numerado, com menos de 13g de açúcar, com 75% de Pinot Noir, rivaliza com o que se faz em Champagne, com 12% de álcool, é um ótimo abre-alas, mas também uma ferramenta liquida para tocar um jantar inteiro.
  • Entre um Barolo moderno, pronto para beber, apesar da pouca idade, mas com todas as características exigidas pelo Doc, além de apresentar uma inusitada menção geográfica de origem, pois Serradenari – de onde vem – apesar de ser autorizada a produzir Barolo não é usual; um Valpolicella di Ripasso típico, seja pela tipicidade regional, seja pela tipicidade da vinificação – que lhe garante um álcool a mais do que o Valpolicella Classico que lhe dá estrutura, e um álcool a menos, além de menos dulçor e fruta do que o Amarone que lhe empresta suas peles usadas; um Barbera Superiore que afasta definitivamente a velha impressão que se tinha desta uva, quando era feita apenas como acompanhante de corte para os nobres nebiollos; a novidade veio de Nápoles, também nos tintos, pois o Aglianico da Campania – a uva nativa da Italia com o DNA mais antigo – surpreende com um vigor impressionante. Quem pensava que o sul da Bota se contentava com Nero Davola, Primitivo e outros, agora já não pensa mais assim.