Uma viúva deliciosa

Escrevi para a revista VIV de DEZEMBRO – 2007 um artiguinho sobre a Veuve Clicquot. Tratava-se de revista dirigida a gente com mais de dez lustros.

Faz tempo, mas tenho a reparar apenas os exemplos brasileiros que cresceram muito ou eu cresci e agora sei que são muito mais e mais importantes.

Tantos anos depois, me dou conta que a Veuve Clicquot podia bem ser chamada também como a Viuva Publicitária, tanto soube inovar, conquistar públicos novos, descobrir-se popular e atual. Copio algumas imagens, a grande maioria do século XX.

 

Por Breno Raigorodsky*

 

Nós, leitores desta revista, merecemos mais prazer e menos compromisso, por tudo que já cuidamos de nossos pais e de nossos filhos, por tudo que fomos responsáveis socialmente, por tudo que tentamos fazer para melhorar a qualidade de vida de nossos pares etc.

Merecemos sim, todos nós, o prazer de fechar o ano com chave de ouro.

Por exemplo, podemos levar uma viúva maravilhosa para casa, primeiro para a mesa e quem sabe para tantos outros cômodos mais íntimos.

Sim, uma viúva tão especial que dificilmente se leva a um restaurante, seja por causar inveja incontrolável a outros comensais, seja porque está acima da qualidade de atendimento de 99% dos lugares para os quais você ou eu poderíamos levá-la. Seja ainda porque você não quer se sentir obrigado a compartilhar a experiência com toda a malta.

Veuve Clicquot, Viúva Clicquot – Madame Clicq para os mais íntimos – é a divina borbulhança que o homem mantém renovável, mostrando que a sustentabilidade no hedonismo existe há, ao menos, 232 anos, muito antes dos economistas começarem a discutir o termo “desenvolvimento sustentável”.

Tecnicamente falando, ela não é mais do que um champanhe, nome insuficientemente nobre para classificá-la, mas voilà.

Tecnicamente falando, ela vem sendo refeita com as uvas de todos os champanhes, ou seja, Pinot noire, Pinot meunier e Chardonnay, excetuando aquelas feitas exclusivamente de uva Chardonnay, ditas Blanc-de-Blanc. Ela é uma das ocupantes, no nascedouro, das superfícies consagradas ao plantio da uva, França afora, de acordo com a lei consagrada à viticultura de 22 de julho de 1927. Reserva-se 3% de toda a área de plantio viti-vinífero do país aos produtores do vinho conhecido pelo nome exclusivo de Champagne, nos arredores da Montanha de Reims, acima de Dijon, direção nordeste de quem sai de Paris, na verdade um planalto que se inclina delicadamente em direção aos vales de la Vesle e Ardre.

Madame Clicq rose é assim como as outras, só que sua Pinot Noir entra no liquidificador com mais de 50%, o que lhe dá este tom de rosa pálido, que a cor que Madame criou nos idos do fim do século 18, depois de um porre daqueles, dizem. E não pense que toda rosé é como ela, porque a cor pode ser conseguida por uvas tintas menos nobres.

Você vai me dizer, mas há tantas outras que jamais casadas foram, quanto mais viúvas… Outras, prontinhas para o consumo, no sentido bíblico do conhecimento. Ed é vero, são tantas produzidas por lá, no mínimo tão boas quanto aquela.

Seus nomes borbulham na boca de todos nós e pesam em nossos bolsos, a começar com as Möet Chandon, Taittinger, Gosset, Bollinger, Cristal e Pol Roger. Essas e tantas outras rivalizam no preço e muitas vezes até no charme, desculpem os fetichistas de plantão.

Pior do que isso, no afã de imitá-las, o mundo engarrafa produtos de qualidade quase tão boa, como os espumantes da Franciacorta italiana que são feitas com as uvas e o método idênticos e – pasmem – com qualidade suficiente para confundir muitos especialistas em testes cegos.

Furos muito abaixo, com a aparência garrafal de um champanhe – incluindo aí aquela amarração de metal que impede a rolha explodir a um indesejável sacolejar mais intenso – com a nítida intenção de confundir o comprador ingênuo, o mundo produz arremedos em todos os sentidos. Os mais bem sucedidos atualmente são os Cavas catalães e os Prosecco vênetos, mas há para todos os gostos, origens e bolsos, líquidos engarrafados, gaseificados e com aparência de champanhe.

Furos acima, a região da viúva domina amplamente os produtos “petillant”, como dizem os franceses. Estes seguem um ritual centenário, que mistura a quantidade de cada uva que entra na mistura (l’assemblage de cépages), na mistura de produtos de diferentes terrenos produtivos (l’assemblage de crus) e na mistura de produtos de anos diferentes. É uma mistura digna de um festival hippie onde ninguém sabe de quem é quem. E ainda mais, cada tipo pode se misturar com uma certa quantidade rigorosamente determinada de açúcar, para ganhar a classificação de natural ou extra-brut, brut e demi-sec.

Mais ou menos, produtores do Novo e do Velho Mundo seguem a receita francesa na quantidade de açúcar adicionado para produzir a segunda fermentação. Menos do que mais, seguem também o demorado e custoso processo de fazer na garrafa, virando cada uma delas ¼ de rotação ao dia, até que ela se dê. Mais simples e econômico é provocar esta segunda fermentação ainda nas cubas de fermentação, que transformam a massa de uvas em vinho.

E se você anda pouco exigente e está longe de ligar para viúvas de nome difícil, se seus parentes e amigos não estão nem aí para essas coisas, pode ser extremamente excitante descobrir o espírito cívico nacional nos espumantes do Vale do Vinhedo que andam a surpreender na qualidade… e no preço, porque não são tão baratinhos assim!

Os grandes produtores do Vale do Vinhedo usam copiar todas as fórmulas européias e fazem isso razoavelmente bem, a ponto de ser o espumante o mais respeitado produto da região, enologicamente falando. Tanto que vários produtores estrangeiros escolheram em sua plataforma de produção o Brasil para o espumante e Argentina para o tinto.

O exemplo mais notório é da multinacional Möet Chandon, que faz sua linha Excelence brut normal e rosada vinhos de qualidade internacional. A qualidade do Prosecco e do Espumante Brut pelo método tradicional (champagnoise), da Salton, anda deixando rugas nas testas dos exportadores italianos, que olham com preocupação o nascimento de um concorrente. A Miolo, a Aurora, a Almaden Remi-Martin, Valduga, Don Laurindo e mesmo outros tantos fazem surpreendentemente direitinho, como é o caso da linha Décima da Piagentini.

Pronto, acabou o espaço para fazer esta incursão infindável no mundo da bebida mais charmosa e festeira, a partir de seu ícone máximo em charme e benefício.

Viúvas, virgens, com safra datada ou mistura de colheitas, rosadas ou brancas, mais ou menos secas, a champanhe está aí para servir de memória degustativa de todo bom fim de ano desde que o prazer do gosto se tornou necessidade.

 

Breno Raigorodsky, 58 anos, filósofo, publicitário, embaixador do
vinho e da comida, escreve regularmente sobre turismo, enologia e
gastronomia.

Ainda VinItaly, agora em versão caseira

img_13753.jpgOs vinhos foram devidamente apresentados em matéria anterior, agora era o caso de prova-los com comida, pois, como venho dizendo, em muitos anos de degustação jamais vi um vinho ser avaliado da mesma forma, com e sem comida. Quero dizer, em degustações às cegas onde uma bateria de vinhos foi degustada sem comida e depois com comida, jamais a ordem inicial foi mantida. Teve caso do primeiro colocado ir para o 6º lugar em 9 mostras!

Por isso, me senti na obrigação de apresentar para 10 pessoas, todos habituées na arte do degustar, 3 pratos principais para melhor avaliar os vinhos. Um para o Bachero, vinho muito estruturado com Verdichio (Brandade de Morue), outro para o Grumello (Bollito Misto), um delicioso Valtelina de nebbiolo que já tinha me impressionado profundamente e dois para o potente Brunello di Montalcino (Bruschetta com stracotto di ragbo e fetucini a Alfredo di Roma), deixando para o Barolo a passagem entre o segundo e os terceiros pratos.

Bachero – IMG_137512,5%, Verdicchio 85% + uvas autorizadas da região, vinho da Provincia de Ancona com base na região conhecida por  Castelli di Jesi, banhada pelo rio Esino. Me impressionou na VinItaly, IMG_1029 (1)muito pela cor intensa, perfume delicado e persistente de fruta e flor. Na boca é equilibrado e persistente com retrogosto ligeiramente amargo, como é típico desta uva.

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Foi admiravelmente bem quando chamado a compor um par com o Bacalá affumicato, servido sobre uma fatia de batata assada, ostras, marisco e vieira.

 

Grumello – grumello-bassa_cut-600x428Este Valtelina me impressionou bastante, até tentei fazer uma boa entrevista com o responsável pela assessoria de imprensa do Conzórcio dos Vinhos de Valtelina, mas não resultou em grande coisa do ponto de vista jornalístico, porque o gajo começou a puxar a sardinha para o lado de um determinado produtor, que depois descobri, era da sua família… De qualquer jeito, degustei vários produtores, alguns excepcionais, como a Scersé, aqui já citada em outro artigo.

img_13752.jpgPara este vinho do norte da Lombardia, feito de 90% de nebbiolo ou mais, com características que lembram os grandes vinhos do leste da França, entre os pinot noir e os gamay, agradavelmente tânico, com uma acidez acima dos 4,50g/l, até porque seus 12 meses de barris de 80 mil litros de madeira da Eslovenia e mais 8 meses em garrafa, deixam o vinho maduro e gastronômico, sem perder característica típicas que se encontra nos bons Langhe Nebbiolo.

Portou-se maravilhosamente bem com o bollito misto, feito especialmente para ele e mostrou-se capaz de competir – um nível abaixo, é verdade, principalmente para quem tem dificuldade de gostar de vinhos mais ralos – com o vinho que lhe seguiu, o Barolo.

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Barolo– trouxe este vinho por ser de um produtor de grande porte, a Morando do Piemonte, que faz, entre tantos outros, vinhos como Grignolino, espumantes IMG_1375charmat, barbera, barbaresco e tantos outros. Uma mistura típica de  negociante/produtor que se especializa em não ter especialidade. O principal atributo deste Barolo está fora da garrafa, está no bolso: o preço para o importador, permitiria entrar no mercado brasileiro a menos de R$200,00, quem sabe até em torno de R$150,00, o que seria uma façanha comercial!

Imaginei que ele faria o maior sucesso se tivesse uma qualidade intermediária. Não precisava ser um Gaja, um Piu Cesari para competir, por este preço bastava estar no nível, por exemplo, de um Barolo Fontanafredda básico, que no mercado brasileiro que é vendido por R$199,00 na Bacco’s, só para citar um ponto de venda conhecido!

E na boca não decepcionou. De menor estrutura que outros tantos Barolo, este passa mais por um consistente Langhe Nebbiolo, o que não chega a ser defeito na minha opinião, tornando-se muito mais fácil de se vender em restaurantes, porque fica pronto para beber em uma meia horinha de respiro, contra os 120 minutos mínimos necessários de oxigenação para servir um grande Barolo, o que quase impossibilita o serviço fora de casa (é vinho de abrir quando se começa a cozinhar e servir 3 horas depois).

Para ele e para o vinho seguinte, os pratos foram uma Bruscheta de Stracotto di Coda (rabo de boi) e um fetucini a Alfredo di Roma.

IMG_1389Alfredo

Brunello- finalmente o Brunello, vinho nobre de uma família de vinhos que nascem nobres e ricos. o Brunello di Montalcino Dievole faz parte de um poderoso time de toscanos, por enquanto formado por um Rosso di Montalcino, um Chianti Classico Riserva, um Bolgheri e este reserva de sangiove grosso, também conhecido como Brunello. A sudoeste de Montalcino, a 350 metros de altitude em direção a Brunello DievoliMaremma, na região mais quente de Montalcino, com um solo arenoso e rochoso, o vinho nasce mais mineral e com melhor e com bela
estrutura. Trata-se de um Brunello intenso e elegante, que cumpriu uma fermentação de duas semanas de fermentação espontânea, seguida de 40 meses em grandes toneis de madeira e um descanso na garrafa de 8 meses antes de sair para o mercado.

Nenhum dos vinhos decepcionou e todos fizeram jus à comida preparada para eles. No entanto, o Grumello Valtelina é o que mais surpreendeu, porque mesmo totalmente desconhecido pela grande maioria dos comensais, não se inibiu e mostrou uma personalidade forte, diversificada e desejada por todos.

Bom seria um importador se habilitar para trazê-lo para cá!

Vinitaly, o caldeirão.

Escrevi uma vez que a Itália produzia o pior e o melhor do vinho. Frascati, Lambrusco, Bardolino, Sangue di Giuda, são os contrapontos infernais dos divinos Barolo, DievoleBarbaresco, Brunello, Chianti Classico Riserva, Amarone,  Bolgheri, Picolit…
Os divinos, na verdade, são tantos, quase tantos quanto os da vizinha França. Sem tanta fama, seguem nobres os Nobile di Montepulciano, os Morelino di Scansano, os Taurasi, os grandes sicilianos baseados nos nos Nerello di Mascalesi e nos Nero D’Avola, como os excelente Mille e Una Notte do produtor Donnafugata.milleeunanotte

Sem contar os vinhos surpreendentes da Umbria como os de Falesco, da Puglia com Primitivo di Mandúria e Salento, do Piemonte com outros nebbiolo como Gheme e Gatinara, da Toscana como os supertoscanos, Santantimo, Val d’Órcia, os brancos do Veneto e do Lago di Garda, os Alto Adige etc.

Sem considerar que grandes produtores regionais, como Antinori e Gaja ultrapassam fronteiras tradicionais e investem pesado em outras regiões, levando tecnologia e inovação para regiões que não estavam entre os melhores, seja em uva, seja em vinificação. Puglia, Sicília, Vêneto sendo invadidos por grandes produtores da Toscana e do Piemonte. Uvas consagradas regionalmente sendo usadas em outras regiões, colocando em cheque os princípios das Denominações de Origem italianas, que exigem o uso prioritário de uvas locais.

mapaA Peninsula Itálica está entre os maiores produtores, os maiores exportadores e os maiores consumidores (33l/ano em 2015, 20,5 milhões de hl – Fonte http://www.inumeridelvino.it/2016/10/i-consumi-di-vino-totali-e-pro-capite-2015-aggiornamento-oiv.html#more-19018). Contraponto aos vinhos de quantidades enormes, vinhos de altíssima excelência, que rivalizam em qualidade com os melhores do mundo.

 

IMG_0841Na Vinitaly esta reflexão se confirma. Boxes e mais boxes com vinhos praticamente iguais, puro commodity, vinhos cuja maior diferença entre si está no rótulo de identificação, porque por dentro são iguais na falta de cuidado, no exagero da extração, na vontade de ganhar de modo abusivo. Vinhos sem personalidade própria, à procura de um lugar na gôndola, nada mais.

Isso não é mérito ou demérito exclusivo dos vinhos italianos, visto que todos os produtos bem sucedidos criam um potencial movimento imitativo entre vizinhos, que usam as mesmas uvas ou têm as mesmas características de vinificação.

IMG_1086A Vinitaly reúne novidades em torno do vinho. Maquinaria de acabamento, layout de embalagem e novidades nas degustações, aproveitando a paisagem e a historia da cidade de Verona, se multiplicam. IMG_1079

E eu querendo novidade dentro da garrafa, no vinho propriamente dito, coisas que conheço pouco,  como os picolitTeroldego de Verona, uma da regiões de vinhos com esta uva de nariz frutado e florido, particularmente longevos; como os delicados Nerello di Mascalese, ou os poderosos Taurasi, e Bolgheri como Tua Rita, além de vinhos extraordinários e raros como o Picolit dei Colli Orientali del Friuli di Roca Bernarda, vinho de sobremesa com produção de apenas 500 hectolitro/ano, visto unicamente nas adegas dos príncipes e papas.

É verdade que o anseio pelo desconhecido não leva obrigatoriamente a grandes achados, porque – via de regra – cumprirmos mais ou menos os mesmos caminhos que a historia do consumo determinou, onde a regência do consumidor se faz presente, com ou sem a intervenção dos entendidos.

Ou seja, dando – em boa parte – razão à lógica do mercado, quase sempre são os melhores que se consagraram e isso define os vinhos cujo vôo permite frequentar os grandes centros ou se restringir a um consumidor local, que paga por um vinho simples e não o troca por outro mais voltado para o mercado geral, a não ser em alguma ocasião comemorativa.

É o misto de sabor local e preço – a incrível resiliência de vinhos feitos de um jeito ultrapassado, sem aporte de novas tecnologias, sem investimentos importantes em higienização e práticas mais saudáveis no campo. É esta mistura que explica, não apenas os Lambrusco, Frascatti e Bardolinos da vida, como também os vinhos de uva americana que se consome por aqui.

Mi gusto non é su gusto! Vinhos de baixa qualidade e baixo preço abundam no mercado internacional, local e regional.

E isso se vê claramente numa feira como a Vinitaly.

Mas se o mercado parece dar a palavra definitiva e vaticina quem vai para o trono ou não, permite-se acontecimentos cada vez mais vistos – uvas sendo aproveitadas de modo diferente ao que o mercado se acostumou a vê-las. Dois exemplos recentes?

  1. O Barbera que sempre foi um vinho abre-estrada para os nobres do Piemonte, tem se mostrado cada vez mais concentrado, consistente, complexo e outros atributos que não costumava ter, quando, até poucos anos, não tinha sequer a chance de passar por madeira de qualidade.
  2. O Zifandel que, como o Primitivo, passou décadas como vinho de mesa e agora se mostra com a concentração de alguns dos vinhos de maior prestigio e preço do mercado.

Mesmo tendo perdido a chance de me aproximar dos vinhos que conheço pouco e que queria ter maior intimidade como os Teroldego, os Taurasi e os Nerellos de Mascalesi, não posso dizer que não aproveitei. Vamos às novidades mais marcantes:

VALTELLINA – Já não era nada tão novo assim. Promovi uma Sforzatto degustação às cegas, em 2014. Pus na mesa Gheme, Gatinara, Barolo, Barbaresco, Langhe Nebbiolo e Sforzatto. Ou seja, um pot-pourri de nebbiolo.

Naquele meio, o Sforzatto escolhido não se saiu tão bem, a turma era muito forte e os confrades não morriam de amores por vinhos tão alcoólicos e com ataque doce, como é este lombardo quase austríaco, que lembra o jeitão de um Amarone, por ter uma vinificação semelhante. Mas um ano depois, pude abrir o leque de alternativas da região e minha referência tornou-se a Scercé, um vinho encantador, particularmente nas alternativas menos alcóolicas.

O consórcio dos produtores da região (http://www.vinidivaltellina.it), que conta com mais de 40 produtores, apresentou-se num coletivo que permitiu este degustador incauto a conhecer esta face da nebbiolo mais desconhecida: a dos vinhos simples, mais do que os Langhe Nebbiolo piemonteses. Mas também uma deliciosa mostra de vinhos com alguma passagem por madeira, corretos, mais firmes que os Gamay do sul da Borgonha, do mesmo estilo, sabor, cor e acidez de muitos Bourgogne básicos.

InfernoGostei particularmente de um produtor do grupo, Mamete Prevostini. Seu Inferno não fica nada a dever aos bons do Piemonte, além dos Barolo e Barbaresco. Com seus 13,5% de álcool, nozes e fruta em compota, perfume de bosque muito presente – apesar dos 12 meses que passa em barril de carvalho de muitos usos e os 8 meses de garrafa obrigatórios – faz boa figura, mostrando que a uva encontra-se a vontade, mesmo a algumas centenas de km de distância do Langhe piemontês de origem. Outros vinhos do mesmo produtor, como o Grumello, impressionaram muito bem.

OLTREPÓ PAVESE – Butafuoco é o nome do melhor, quem sabe o único vinho que merece real destaque na região. Tive oportunidade de conhecer os pinot nero, um tinto e um rosé, que fazem por lá. Meia boca o tinto, muito bom o rosé.IMG_1070 O Butafuoco dell’Oltrepò Pavese é DOC mas deveria ter um DOCG, para separar o joio do trigo, porque sob este título experimentei um vinho que não passa de mediano e um outro excelente. Butafuoco é sempre feito de Croatina, Barbera, Uva Rara e Ughetta di Canneto, É muita confusão sob a mesma titularidade pois as versões tiram a força do vinho de excelência e confunde quem não conhece bem. Descobre-se que o Butafuoco pode ser vinho “fermo” (seco, disponível inclusive com grande envelhecimento em madeira), “vivace” e “frizzante” o que desmoraliza o esforço de quem está atrás de fazer um grande vinho para rivalizar, no mínimo com os segundos vinhos carismáticos das regiões vizinhas, os Roero, os Rosso di Montalcino etc.IMG_0991

CALABRIA – Outra região que não conhecia nada e mostrou potencial crescente foi a Calábria, quem diria. O mundo conhecia o Cirò, o vinho oficial da seleção do calcio italiano, l’Azzurra, durante muitos anos. Feito com a cepa Gagliopo, em mais de 90%, o Cirò renasce das cinzas. Assim como ele, me encantei com alguns produtos da vinícola LentoVinitaly Lento, particularmente com este Lamezia Riserva. surpreendente revelação, um vinho de 14% de álcool, cuja uva estrela é a autoctone Magliocco, que divide os louros com a Grecco Nero e com uma versão local da Nerello, que tanto brilha na região do Etna siciliano. Depois de passar dois anos em guarda de aço, estagia em madeira francesa por um ano e no mínimo seis meses em garrafa antes de ir para o comércio. Grata surpresa saber que a vinícola fica tão perto de Parghelia (72km), onde passei 20 dias colhendo ouriço e patelle* nas rochas, aprendendo a pescar polvo e comendo pratos à base de atum que passa em cardumes gigantescos por aquelas águas do Tirreno. Peixes tão grandes que uma vez fui comprar na vizinha Tropea uma posta, que foi cortada com serra elétrica e pesava 6 kg!*

 A verdade é que nunca esperei encontrar vinhos calabreses com aquela qualidade. Equidistante dos mares Adriático e Tirreno,  Lento foi uma das mais gratas surpresas que tive na Feira. Porque além do Lamezia, outros bons vinhos me foram oferecidos, particularmente o Grecco, branco de alta qualidade, surpreendente estrutura.

MARCHE – Totalmente inesperado, um vinho produzido pela Piersanti este Bachero mostra uma concentração inesperada para os Verdichio, vinhos comumente jovens, recentes. Vinitally BacheroIMG_1029 (1)Em troca de maior acidez, este Verdíchio dei Castelli di Jesu Classico com mais de 13% de álcool, não fica nada a dever a outros tantos grandes vinhos brancos da Itália. Piersanti está a espera de um importador para o nosso país.

TOSCANA – Depois do grande sucesso dos Brunello di Montalcino e dos Supertoscanos, apenas a Denominação Morelino di Scansano chamou a atenção da crítica para os vinhos desta região central da Itália, pioneira nos vinhos reconhecidos no mundo inteiro a partir de seus chianti, identificados pelo formato em ânfora de suas garrafas cobertas por uma malha de palha.

IMG_1037Ocorre que na pressa de achar novidades, uma sub-região – vizinha de vale à Montalcino – ficou meio esquecida pelo caminho – Montepulciano (não confundir com a uva abruzzêsa).

Gatavechi faz vinhos tradicionais Vino Nobile di Montepulciano e Rossi di Montepulciano com uma qualidade que não deve nada à grande maioria dos Brunello. Sua linha mais moderna, menos típica, passa 18 meses em barricas de 225litros de madeira francesa, dando-lhe uma elegância que seus tradicionais produtos que descansam em grandes botes de madeira da Eslovenia não têm. Beleza de vinho!

SARDENHA – Temos pelo Brasil algumas garrafas desta mítica ilha, tão disputada pelos turistas, tão conhecida pelas suas praias paradisíacas e muito menos conhecida que a Sicilia. Mas nenhum dos seus vinhos me impressionou mais do que este Canonau, de baixa produção (65 q.li / ha.). Canonau, sabe-se hoje em dia, é a Garnacha espanhola, que andou migrando para o lado da França, ganhando o sotaque de Grenache por aqueles lados. Só que na Sardenha ela está há mais de 3200 anos, o que permite discutir se é autóctone viajada para a Espanha ou o contrário.

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Como em outros países, foi meio que mal tratada, visto como uva secundária, até que ganhou prestígio e bom tratamento. No caso Pedres, ela passa por 6 meses em madeira de primeiro uso e com isso se dá muito bem!

LAGO DI GARDA – já falei de Cà Maiol, um produtor que admiro muito, particularmente com os vinhos TOP, como o excelente Lugana Fabio Contato.

Aqui, quero chamar atenção para um pequeno produtor, que se vira com um quintal que desemboca no lago, plantando lá as uvas típicas da região. O contra-rótulo de seu Morenico é auto explicativo: É vinho de muita elegância, IMG_0995sugerindo que a região não produz apenas vinhos de qualidade com seus Lugana Trebianni, mas também o Gropello sabe bem se comportar, servindo de base para produtos de alta qualidade. Uma particularidade: o serviço foi completo com uma deliciosa porção de Colonata defumada, muito agradável em boca. Estava difícil levantar-se da mesa, tão bem caiu a harmonização + o cansaço físico e mental que só uma feira de vinho pode trazer. Com estrutura semelhante ao Morenico, pude degustar o grande vinho da casa, muito mais pretensioso, com metade das uvas secas por dois meses e com 15 meses de guarda em Allier de primeiro uso, o Don Lisander. Belo vinho, mais de reflexão… Por isso, fiquei no Morenico, numa boa!

Para finalizar, tendo deixado de lado muita coisa para contar – como os Primitivo de Salento que andei procurando, os grandes vinhos Roero e espumantes do Piemonte com uva autoctone Erbaluce, os Malvirà, o Fontanina di Valpolicella, o familiar Villa Crine – o melhor da comida regional: não é possível ir a Itália e não se aproveitar para beber do caldo cultural e da paisagem estonteante, onde cada centímetro foi conquistado, reconquistado para depois ser novamente conquistado. A primeira foto da esquerda uma espécie de cabaça de mussarela típica de Molise. Ao lado, uma jóia inigualável de Pavia – o salame de ganso!!!! Finalmente, em Desenzano di Garda, num dos mais lindos restaurantes rurais que já vi, o mais típico e delicioso prato deste nordeste italiano, o assado equino com pinoles e radichio :

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Entre a Espanha e Portugal fiquei com os dois.

VinItalyÀs vésperas da VinItaly, estudo o que vou querer ver mais de perto.

Vinhos que vale trazer para o Brasil, produtores que não estão por aqui, vinhos de determinada faixa de preço, vinhos/commodities, vinhos quase inéditos, como um Negrette, como um Rufete, como um Nerello di Mascalesi…vinhos e uvas que jamais ouvi falar.

Nem todo mundo prefere as grandes feiras de vinho que acontecem no mundo inteiro. Elas geram multidões, obrigam preparo físico de maratonista, fazem com que o visitante queira aproveitar todos os momentos, porque algum vinho excepcional pode escapar.Verona

Nestes casos, quase sempre, preparo-me tematicamente. Escolho na feira o que quero priorizar e só depois de esgotar o tema, dou-me o direito de passear flanando pelos vinhos de qualquer tipo ou lugar. O tema pode ser uma determinada uva, uma determinada região, uma faixa de preço. Não importa, é preciso tematizar, o que sempre significa perder alguma coisa, porque há muita preciosidade que está fora de seu projeto principal.

Se o tempo fosse infinito, o melhor seria sempre o inverso, conhecer um universo por vez, mesmo que ele seja mínimo, uma vinícola, uma uva, ganhar intimidade com aquele projeto, saber porque aquele produto foi feito, o que levou o enólogo a deixar seu vinho tanto tempo em madeira ou em inox, ver os resultados com tempo para refletir.

Digressão feita, nada melhor do que ter poucos e bons para conhecer, a expo numa medida justa.

Este foi o caso da WorldWine Experience Península Ibérica 2017. Seis produtores espanhóis, sete portugueses.

Entre cavas, brancos, rosados, vinhos naturais e biodinâmicos e vinhos fortificados, elegi começar pelo tinto mais barato de cada produtor.

No quesito preço, os campeões indiscutíveis foram um Dão, o Vale da Ucho por R$44,00 e o Borsao Classico, R$46,00. Enquanto o primeiro se apresenta com o típico desleixo no marketing, não tendo sequer uma ficha técnica que nos ajude a posicionar corretamente seu vinho, o segundo – filho jovem de vinícola emblemática que é – tem tratamento totalmente diferenciado.

Sabemos do Vale da Ucho, apenas que o nome se refere a um período anterior ao absolutismo, quando o rei local guardava sua melhor produção em uma uchas, adegas particulares (?). Sabemos que o jovem Borsao é da família da Bodegas Borsao, dito por Robert Parker em 2016 como sua vinícola preferida no mundo, quando se trata de value for money. Sabemos que é um vinho feito das uvas Garnacha, Cabernet Sauvignon e Tempranillo, tendo à testa a uva mais importante da Bodega, a Garnacha que uma vez foi mais importante em kg e ha que a Tempranillo na España de então. Hugh Johnson faz coro a R.Parker – ou vice-versa – ao incluir seu 3 Picos entre um dos 101 melhores vinhos do mundo (R$198,00).

Mas o pequeno preço é uma espécie de anticlímax em se tratando de uma exposição que apresenta produtos que fazem consumidores se apinharem em filas intermináveis na porta do evento. A oportunidade de experimentar um Carm, um QV Dona Maria, e principalmente um Wiese&Krohn Vintage 1957 ou 58, ambos de R$5.500,00 a garrafa excita mais do que qualquer coisa que vista meias de seda.

Por isso, comento aqui o que me pegou.

QVDM 2012Como notas de prazer múltiplo, os grandes da Quinta do Vale Dona Maria. Mesmo o pequeno Rufo tinto, de menos de R$100,00, é vinho pra ninguém botar defeito, com sua mescla de Tourigas, com 12 meses de passagem por carvalho francês de vários usos.

Contrariando as notas dos críticos americanos citados, os pícaros da glória ficaram para o 2012 (R$438,00), algo acima dos 2013, do Three Valleys 2013 (R$231,00) e dos Vinha Francisca 2012 (R$644,00), do Vinha do Rio 2012 (R$1012,00). Exuberantes, de uma elegância incomparável, de uma tipicidade até duvidosa, porque é preciso paciência para entender que estes vinhos são de um Douro, que uma vez produziram a tempos deleites como Barca Velha e CRF*. No começo, vinhos que poderiam bem se passar pelo que se fez de melhor em Pomerol, para então se mostrar claramente português.

São 14,9% de álcool que se derretem na boca, mistura de 41 castas, entre elas o Rufete, a Tinta Amarela, a Tinta Francisca, o Sousão, a Touriga Franca, a Tinta Roriz e muitas outras típicas do Douro, procedentes das vinhas velhas da Quinta Vale D. Maria, com idades superiores a 60 anos; a malolática é feita condicionada a barris de 220 e 300 litros fruto de mestres da tanoarias de Bordeaux, para depois estagiarem por 21 meses em madeira francesa (75% de primeiro uso). Um arraso, bom como um Ausone. Mais pronto.

Depois de tanto elogio, sem fôlego para falar bem de mais alguém, resta citar outros tantos que fariam as vezes do melhor, se lá não estivesse tamanha qualidade quinteira.

Em pé de igualdade, há de citar o Marquês de Murrieta Gran Reserva Ltda Edition 2009 (R$264,00) e o Castillo Ygai Gran Reserva Especial 2005 (R$814,00).

IMG_0794Este último, conquista com seu rótulo original do século XIX e derruba as resistências com seu vinho de estrutura falsamente apenas tradicional… Falsamente porque apesar das uvas Tempranillo (+ de 80%) e Mazuelo, passarem ambas por 28 meses de madeira, cada uva estagia em madeira de origens diferentes: A Tempranillo por uma delicada e surpreendente madeira americana, a Mazuelo por uma bordolesa! A partir da assemblage feita em concreto, num descanso de 6 meses, os dois anos seguintes se passam em garrafa, (quase) tudo se dá conforme a tradição.

Injustiça não citar algumas outras bodegas que lá se apresentaram.

Nada contra as naturais e biodinâmicas, particularmente a Valderiz, que faz o Valdehermoso Crianza (R$174,00) e o Valderiz Juegabolos (R$352,00), vinhos sem defeitos e modismos, com finais nobres e complexos.

Ou o Herdade de Rocim, cujo vinho de entrada, o Mariana Tinto (R$65,00) me deixou uma impressão tão gratificante quanto o Herdade 2012 (R$109,00);

Ou o Vivanco, que conheci em todas as suas dimensões, incluindo seu Parcelas de Graciano 2007, que se mostrou um vinho com grande especificidade, elegância e tensão; ou o Carm que veio pra briga com o Maria de Lourdes 2011, um Douro diverso, nobre, importante.

*O melhor vinho que tomei em minha iniciação vinífera, um Carvalho Ribeiro Ferreira 1948 (engarrafado em 1952, 4 anos de barrica francesa) em 1978. Parece que a gigante que comprou a vinícola se esmerou em terá-la de linha.

 

Dona Berta. Um bom Rabigato no meio do Douro

Olhando de longe, parecia que tinha descoberto a pólvora, entusiasmado que fiquei com o primeiro Rabigato 100% que pude provar, Quinta da Mieirao Quinta da Mieira 2010. Com ótimo trabalho de vinificação a uva se mostrava poderosa, capaz de ser vista até como uma parente – não tão distante – de um chardonnay, versão Petit Chablis. O solo era isso aí:

Solo da Foz de Côa
Solo da Fóz de Côa – Douro, acima de Régua

A uva, pouco se sabia dela fora de Portugal, até no Douro entrava apenas naquelas misturebas sem cuidado, entre Verdelho e Viozinho, sabe como é? E quem ligava tanto para o vinho branco da região, quando se olhasse para um lado ia ver Alvarinho e Loureiro, se olhasse pra baixo, Antão Vaz e Arinto, além de tantas outras secundárias.

E o estouro regional, quando ganhou independência da ditadura dos vinhos do Porto, que sugaram suas forças desde o Marquês de Pombal, foram os grandes tintos, a começar pelos da Ferreirinha, seguidos por tantos outros, entre eles os que formam o grupo Porto Boys – Quinta do Vallado, Niepoort, Quinta do Crasto, Quinta Vale D. Maria e Quinta do Vale Meão. Todos grandes e indiscutíveis!

Dona Berta, faz Rabigato desde antes da minha descoberta da pólvora. Estava lá, como atesta prova vertical de pouco tempo, desde ao menos 2005. Os que provei, Vinha Centenária um 2010 , garrafeira também 2010, mostraram-se melhor envelhecidos do que o Quinta da Mieira 2010, que, com o tempo, oxidou de vez. Mesmo assim, uma ponta de evolução no Garrafeira pode se notar, tanto no nariz quanto na boca.

Dona Berta GarrafeiraDe vinificação com o mínimo de interferência em ovo de cimento – tanto que a temperatura da fermentação mantém-se abaixo dos 17ºC por força de o vinho estar envolto pelas águas de um poço que faz com que o vinho fermente a baixas temperaturas naturalmente. O contato com as borras finas, a qualidade da uva e todo o cuidado no trato, faz deste vinho algo de extraordinário, traz a Rabigato para o palco das grandes uvas brancas do mundo.DSC_5043

Tem elegância, delicadeza e cremosidade para tanto. Mostrou que o ganho de complexidade devido à idade não é indesejável, ao menos para quem aprecia os grandes vinhos da Europa.

Rabigato à parte, os tintos chamaram também a atenção pelos inusitados monovarietais, não muito incentivados na região, quem sabe porque aí temos grandes vinhos para se comparar.

Sousão e Tinto Cão estrearam em solos próprios, mas desafinaram aqui e ali, o que não ocorreu com o Reserva Tinto 2012, um típico Tinta Roriz, Tourigas e Tinto Cão, que respondeu perfeitamente aos chamados do nariz e da boca. É verdade que os que causaram estranhamento levam o benefício da novidade, mas espero poder conhecer o melhor vinho da Casa, um Vinha Centenária Reserva Tinto, que faz furor Península afora, tanto que anda sendo convocado para representar Portugal em grandes recepções oficiais.

São Paulo, a capital do vinho.

Se São Paulo fosse o Brasil estaríamos bem, em matéria de consumo de vinho. Estaríamos bem próximos aos EUA, que, com seus 10 litros anuais por indivíduo – numa população que ultrapassa dos 300 milhões de habitantes – é o maior consumidor do mundo, superando a França nos últimos anos.

SPA população da metrópole é de mais de 12 milhões de pessoas (21 milhões considerando a região metropolitana), é destino turístico de todo tipo, de mais 15 milhões de pessoas/ano, fazendo com que, do ponto de vista do consumo, seja um país de quase 37 milhões de habitantes. São turistas de outros pontos do país + argentinos, franceses, colombianos, alemães e norteamericanos, com um gasto médio diário por turista de R$591,00 para estrangeiros e R$511,00 para brasileiros.

metrôEsta massa de consumidores permite a São Paulo a absorção de 29% dos vinhos em oferta no Brasil, o que significa algo em torno dos 127 milhões de litros, que, divididos pela população local (com a ajudinha dos estrangeiros que não entram na estatística), perfazem mais de 8 litros per capita/ano, o que é muito acima da média estável de consumo do país, ao menos 3 vezes menos do que isso, quando se reune tintos, brancos, rosados, espumantes e tranquilos.

Estes números explicam a oferta de vinho em São Paulo crescente nas gôndolas dos supermercados, nos restaurantes, nas lojas especializadas. Explicam em parte, o agro-negócio estar trocando tomate por vinho, feijão por vinho, milho por vinho, leguminosas por vinho etc. Porque não faz sentido produzir-se em toda parte como agora, onde até Goiás, Chapada da Diamantina, norte e centro de São Paulo, Bolívia e outros lugares esdrúxulos à pratica do plantio da vinha, estejam dedicando seu capital agrário em atividade como esta, migrando parte do erário conquistado com outras atividades industriaisCecrisa (Cecrisa, Malwee), agrárias monoculturas (Citrosul), pecuária e genética (Guatambu), comunicação (Bueno), mineração (Guaspari) e tantas outras para esta atividade que dá notoriedade de nicho
para alguns poucos.

São Paulo explica com seus citados 29% dos vinhos do país, entre importados e produzidos em território nacional, de longe a localidade de maior consumo, entre brancos e tintos, espumantes e tranquilos, de uvas americanas e de uvas europeias.

aeroportoSignifica dizer que se consumimos, país afora, em torno de 440 milhões de litros por ano (2,2 litros per capita/ano), 132 milhões são consumidos em São Paulo, ou seja, quase o que se consome nos EUA, quase 1/3 do consumo da Argentina, da França e da Alemanha.Cardápio

Esta massa de turistas que praticamente dobra a população consumidora da cidade, traz seus hábitos de onde vêm, esperando encontrar postos de consumo por onde passa. São turistas que – do ponto de vista do vinho – só fortalecem a presença do vinho e sua diversidade!

jovens-vinhos-300x200São Paulo continua explicando porque aqui se concentra o novo consumidor do vinho, homem ou mulher, jovem de menos de 25 anos que gosta de vinhos tintos mas também não descarta os rosados e os brancos, espumantes ou tranquilos, de acordo com pesquisa recente do centro de pesquisas vinculado ao grupo que publica a Revista Adega.  O vinho entra na onda da juventude, toda vez que tem alguém na turma que puxa o consumo. Os outros da turma vão atrás, sem grandes resistências.

Mirante2Propomos, o Bijari e eu para a Ibravin, para os produtores, vendedores, distribuidores e agregados, uma série de atividades culturais para realizar um espaço do vinho que viralize, que seja a matriz de tantos outros.

Um lugar que promova cultura e vinho em todas as frentes que interessam aos jovens. Estes mesmos que estão criando um nicho consumidor de cervejas especiais, que se espalham por bares cidade afora, voltados exclusivamente para produtos ditos artesanais.

Atividades culturais, que invadam a Praça, que dividam espaço com os food trucks, que não deixe para todos os concorrentes a primazia das ruas, que rivalize, que se torne uma alternativa de programa descolado.

Mas nada entusiasma os diretores da Ibravin se não houver dinheiro alocado para a iniciativa. Falta parceiros endinheirados, falta flexibilidade dos incentivos.

É preciso dinheiro. É preciso ver no horizonte um espaço do vinho. Procuramos investidores.