Espanha, sem inventar moda

A Espanha tem trazido algumas novidades da hora, da passagem do milênio pra cá, depois que a Itália e a Austrália comandaram o novo, no Velho e no Novo Mundo. A Austrália com seu marketing, com seus cortes ousados (Cabernet Sauvignon+Syrah, quem diria?), abrindo caminho para todo tipo de brincadeira entre vinhos) e a Itália quebrando a fórceps as amarras das Denominações a partir dos Super-Toscanos.

Pé franco
Pé franco em Toro

Isso é injustiça para com o espírito novidadeiro de tantos produtores, até mesmo na Espanha de Penèdes, onde desde os anos 1970 – Gran Coronasportanto contemporâneos às novidades da Toscana – os vinhos da Torres, os Coronas já saiam com corte bordolês, surpreendendo os entendidos menos avisados, a ponto do Gran Coronas 1970 ter recebido notas apenas abaixo de um Lafite, na França, em 1979/80 e o Coronas 1970 ter ocupado o 7º lugar! Um sucesso enorme, embora menos barulhento que o Duelo de Paris, envolvendo os “franceses” da Califórnia.

E o que dizer de o espantoso Abadia Retuerta de Pascal Delbec, um outro Tempranillo/Cabernet Sauvignon que me fez criar uma entrevista imaginária, onde o enólogo responsável pelo Chateau Ausone respondia por sua paixão santemiliana, mesmo em Ribera del Duero. Na verdade, a Espanha não precisou de inovações para ser inventada, os Tondonia e os Vega Sicilia.

Mas, como muita inovação se criou em tantos lugares, muita produção se multiplicou, fazendo do vinho um dos mais rentáveis agro-negócios,  que nem sempre encontramos algo de verdadeiramente novo, a ponto de chamar a atenção pela inovação. O que queremos é ser surpreendidos por um novo que nos agrade na hora, sem ter que fazer muito esforço para nos convencer. Portanto, há de formar um mix entre novidade e conhecimento já digerido que permita o acolhimento.

O problema é que quase sempre esta mistura entre o novo e o conhecido nos leva a uma situação de dejà vue, uma coisa meio maçante que na economia do mercado pode ser traduzido por Commoditie ou Mais do Mesmo!

Legal é quando o novo é suficientemente interessante, quando o que se tem para mostrar se adapta a uma procura daquelas que você descobre que estava a fazer, quando a solução aparece. Mais legal ainda quando isso se dá quando o que impacta positivamente não custa mais do que se espera.

No mundo do vinho, acontece bastante, afinal produz-se com uvas e terroirs tão distintos, com um quantum de novidades tão aprazíveis mundo afora, que é fácil imaginar algo que dê certo, que não seja simplesmente mais um golpe do marketing do vinho, como tantos por aí.

Neste quesito, o mundo tem sempre o que inventar, não apenas e não principalmente os espanhóis.

Vinhos feitos por enólogos em conjunto, uma mostra de terroir, como o que se fez no Chile, envolvendo cinco enólogos e cinco enólogas da Tabali, da Errazuriz, da Undurraga, da De Martino da Laberinto etc. Reuniram-se todos para fazer um 5X20 masculino (cinco enólogos, cada qual responsável por 20% do vinho) e um 5X20 feminino elegendo a Syrah como uva mestre. Por que? Pra que? Será a Syrah a uva mais importante destas vinícolas? Até onde sei não são, pois a Cabernet Sauvignon, a Merlot e a Carmenèrre são responsáveis por alguns dos melhores vinhos do Chile feitos por estas casas… Então por que? Jogo de marketing, vontade de criar fatos novos, estar na mídia, revelar-se. Os vinhos ganharam importância, e o “M” feito pelos homens custa em média 98Euros, de acordo com a Wine Search5X20, o que em dinheiro brasileiro, daria um preço acima dos R$800,00, mais perto dos R$1500,00.

Alguns produtores da região nobre de Toro, Espanha, passaram a trabalhar com um corte de 80% Tinta de Toro (Tempranillo)+Garnacha, com um ano de madeiras francesa e americana, pós malolática induzida em madeira nova e anos e anos de guarda em garrafa, trazendo o essencial da madeira,
mas deixando prevalecer a uva e seus primários, como é o caso do Bodega Estancia di Piedra Crianza, um dos melhores vinhos que pude experimentar numa das últimas viagens a Espanha.

Para finalizar, mostro este Art In Vitro Tandem de Navarra, merlot/tempranillo, 14% de álcool, um vinho que está conquistando seu lugar comercial até no badalado Lavinia parisiense, ao mesmo tempo que recebe aplausos na Decanter inglesa.

Seu frescor está em descartar a madeira, mas não o longo descanso, pois depois de ser fermentado em aço, faz a malolática completa e 22 meses de afinamento em concreto.

O resultado é bonito de se ver, limpo, complexo e longo na boca, levemente floral no nariz. E o preço – o último dos sentidos organolépticos – está longe de doer.

 

 

 

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Artigo do Le Monde- Cruzes-hermitage

http://www.lemonde.fr/m-perso/article/2018/01/29/crozes-hermitage-le-bon-gout-en-heritage_5248480_4497916.html

LE MONDE | • Mis à jour le | Par Ophélie Neiman

Tradução livre e não autorizada pelo autor – minha.

tain-hermitage-80047Esta estrela dos bistrôs tem tudo para agradar: os perfumes da Syrah, um ar de hedonismo, e, principalmente, dezenas de milhares de hectolitros de produção.

O bom senso é o que se melhor divide, escrevia Descartes. Degustando um Crozes-hermitage, pensa-se que o bom gosto é o prolongamento natural deste pensamento. Esta AOC tem uma popularidade fiel e meritocrática. Nos bistrôs dos bairros, ela ocupa, há ao menos 15 anos, um lugar de destaque para quem quer degustar um vinho prazeiroso, chique sem ser caro em demasia. Mesmo que venha perdendo terreno para os vinhos mais chamativos e menos caros, quase sempre do Languedoc, o Crozas-hermitage continua sendo uma opção sem riscos.

CrozesÉ um vinho que nasceu com a estrela. Ou, mais que isso, sob a luz de um excelente paralelo, o 45e norte, com quem divide regiões como Bordeaux, Oregon e Piemonte. Uma latitude considerada como uma linha de equilíbrio ideal para os grandes vinhos.

A pequena cidadezinha de Crozes (do latim Crucem, “A Cruz” ou “Cruzamento”) vizinha de Tain-Hermitage, faz o papel de contrabaixo da famosa Hermitage. A Appellation Cruzes-hermitage nasceu em 1937.

No inicio, serviu de limite da comunidade, para dar evidencia às belas parcelas do Hermitage. Foi preciso esperar até 1952 para que a Appellation ganhasse sua dimensão atual, de 1700 ha de vinhas plantadas, podendo chegar a 3000ha, com 80 mil hectolitros anuais, a metade de toda a produção do Rhone Not, que contém igualmente Saint-Joseph, Hermitages, Cornas e Condrieu e Côte-Roties reunidos.

rotulo CH
Um dos rótulos da AOc mais famosos entre nós

Para saber mais http://www.lemonde.fr/m-perso/article/2018/01/29/crozes-hermitage-le-bon-gout-en-heritage_5248480_4497916.html#AUs2kVlRWpQA97pj.99

Crescimento de exportação dos espumantes italianos. Fonte Sindicato Agrícola Coldiretti.

Tradução livre e não autorizada de artigo da Revue du Vin de 03/01/2018.

As exportações de vinho italiano atingiram números inéditos de 6 bilhões de euros em 2017, um acréscimo de 7%, anunciou o principal sindicato agrícola da Itália, logo na virada do ano. Para comparar, a França exportou 7,9 bilhões de euros em 2016.

As vendas para os EUA cresceram 6%, principal cliente histórico dos vinhos italianos, mesmo com a alta do Euro. Cresceram igualmente para o Reino Unido (8%) e Alemanha (3%).

OS VINHOS ITALIANOS SEDUZEM RUSSOS E CHINESES

Mas é na Russia que o vinho italiano bateu todos os recordes com um aumento de 47%, até porque a Itália não obedece as sanções que sofre a Russia por conta da invasão à Ucrânia. As vendas na China progrediram 25% mas são relativamente pequenas se comparadas às francesas.

São os vinhos espumantes como o Prosecco que sustentaram as exportações italianas, pois cresceram 15% em valor atingindo 1,1 bilhão de Euros, sempre segundo o Sindicato Agrícola Coldiretti.

CLAQUETE 5

Biondi Santi– Agghhhh, que vinho ruim. Você não podia ter trazido algo melhor?

Foi assim que fui recebido e gozado num jantar em pizzaria que um amigo convidou, em comemoração ao aniversário dele.

Estavam presentes mais 3 convivas que comigo e o aniversariante, completava uma mesa de 5.

Levei o vinho de presente, um Brunello di Montalcino que merecia respirar por ao menos, por no mínimo, no limite, UMA HORA E MEIA.

CastelõesPois o trouxa do aniversariante – por mais que eu protestasse – mandou abrir e servir.

Então pedi um vinho da casa para todos, um vinho fácil de beber com pizza, muita acidez e frescor, taninos de baixa complexidade, vinho que na pizzaria não passava de R$70,00. Disse que ficassem tranquilos, pagava eu

jarra– Mas não basta a merda do vinho que você trouxe?

O pessoal tinha conhecimento e ao menos dois deles já tinham ouvido falar de Brunello, mas estes eram os mais inconformados.

-Deixem o vinho que eu trouxe, bebam deste que acabei de comprar.

A questão do vinho voltava à conversa, todos amigos, com intimidade para me pegar no pé. Mas obviamente, era gente que tinha o que contar, gente de boa índole e otimamente formação, alguns deles professores universitários, das mais consagradas universidades deste país. Alguns se conheciam há mais de 20 anos, como era o nosso caso, do aniversariante e eu, que tínhamos feito parte de nossa faculdade juntos, por algo como 3 anos.

A uma determinada hora, muitos pedaços de pizza depois, disse que tinha começado a chegar a hora de tomar o vinho, que finalmente ele já tinha envelhecido um pouco, pela ação do oxigênio do ar.

Disse, queria dar uma oportunidade a provarem um dos melhores vinhos que jamais tinham tomado.

– Tomem de novo, vejam se continua uma merda!

O envelhecimento em taça, a hora e meia que o vinho se manteve lá, foi suficiente para que tivesse mudado do vinagre para o vinho. O oxigênio tinha feito o seu papel de amansar os taninos fogosos, permitindo que ele mostrasse suas frutas, suas especiarias, suas qualidades em boca, que fizeram da região uma das mais consideradas no mundo inteiro.

Todos se olharam com cara de bobo e último a rir fui eu.

10 anos de Vinci. Veni,vidi,vici?

logo VinciA Vinci nasceu oficialmente, porque a Mistral não queria descartar certos produtores que eram concorrentes diretos, a disputar dentro de casa um mesmíssimo nicho de mercado em preço, qualidade, prestígio e volume. Isso jamais valeu para os grandes italianos e franceses que se acotovelam gentil e elegantemente em suas prateleiras, mesmo que um Chapoutier, um Catena Zapata, um Lapostolle não tenham rivais diretos,  como os seus catálogos provam a cada edição.

Diziam também, extra oficialmente, que a Vinci permitiria um ataque direto a canais que a Mistral sempre se distanciou, particularmente supermercados… O que parece não ter ocorrido.

10 anos se passaram e aí está a Vinci, apresentando um Portfolio de bom valor, uma das melhores importadoras do Brasil.

Casa MarinAcomodou perfeitamente a Luca (Laura Catena) e a Casa Marin, que somam com Kaiken, O Fornier, Clos de l’Oratoire des Papes, Morgadio da Calçada (Dirk Niepoort), Castellare di Castellina, CVNE, La Posta, Fontodi, Errazuriz e tantos outros num portfólio de respeito.

Vinho quando não é excepcional é commodity. Depende de quanto representa certa tendência de mercado, certa região demarcada, certo preço compatível com o que os outros importadores apresentam. A mescla procurada pelos caçadores de produtores do mundo é o de distinção e preço, o que faz da Vinci uma empresa competitiva.

Não por acaso, na degustação comemorativa desta semana, a Vinci mostrou vinhos de fácil aceitação como um Primitivo Puglia, uma denominação a meio caminho da ligeira de Salento e da pesada de Manduria. Nos mostrou da CVNE de Rioja não apenas o fantástico out of stand Imperial, mas um Crianza a preço razoável de US$38,
IMG_2469Pudemos saborear um Chateaneuf du Pape como o Caos de L’Oratoire logo depois de conhecer um Cahor Le Palombier de G.Vigouroux de US$18, bem melhor, aliás, que Pigmentum, 100% Malbec de US29, muito mais pretensioso.

A Casa Marin estava voando com Sauvignon Gris, mas o Luca Chardonnay fez tão boa figura quanto, com tipicidade e boa concentração, mostrando que a família sabe bem como tratar um chardonnay (o Alta Catena é talvez o melhor da América Latina, rivaliza com os melhores da Casa Marin).

Para meu prazer, pude constatar minha admiração pela Casa Marin de várias formas, seja na linha Lo Abarca, seja na Cartajena. Pude ver belos vinhos franceses acessíveis, coisa nem sempre comum, particularmente este Palombier de Cahor e um Borgonha genérico do C. Corton C que mostrou singelamente como deve ser um vinho com esta uva mágica, a Pinot Noir.Borgonha

Foi possível o Irmão Unidos da Cave São João, que já tinha me impressionado com seu corte com Bical em outra oportunidade. Me surpreendi com o Kaiken Torrontés, muito agradável para ser desta uva tão difícil de se fazer bem feito.

Pena que a Pinot Noir da Oyster Bay estivesse ocupando um lugar que poderia bem ser de seus dois brancos e mesmo do ótimo Merlot. Minha crítica a este vinho rendeu um artigo, cujo título provocativo era algo como “Porque comprar um vinho que custa 20% mais e vive 20% menos?”…Eu que sou sempre fã da uva borgonhesa não vejo graça neste da Nova Zelândia, que o mundo paga o maior pau.

Gostei de conhecer, mas não gostei do que conheci numa taça de um vinho de Mencia, o Señorio de la Antigua, que tanto impressionou os críticos da WS e da WE. Não desceu.

Mas o geral é que importa, saber que a Vinci tem vários bons vinhos competitivos e confirmar seus excelentes ícones valeu comemorar os 10 anos de Vinci com esta modesta reportagem.

Saiu na Vinho & Cia.

VC5Venho tentando me entender no complexo agro-industrial, econômico, político, histórico, antropológico e social mundo do vinho. O vinho vai do plantar até o setor de serviços, envolvendo centenas de profissões e atividades. Vira-e-mexe me dá uma necessidade de chafurdar informações, cruzar certezas, inspecionar. Esta série (este é o segundo capítulo) produzo para publicar na decana Vinho & Cia.

PARA ENverdeTENDER – RAPIDINHO

As transformações no tempo e as Denominações de Origem Controlada
BRASIL – POR BRENO RAIGORODSKY – O produtor dos vinhos de hoje não é o de ontem, em boa parte porque o vinho de ontem não é o de hoje. Desta tão singela constatação, boa parte é ruim, boa parte é boa.

1ª Parte – Boa e Ruim – Hoje o negócio vinho é feito por profissionais espalhados por toda a cadeia de produção e circulação, desde o capital investido, eventualmente sem qualquer contato com a terra que produz, até o comerciante, que talvez jamais tenha bebido uma taça de vinho, porque basta o aval dos Robert Parker da esquina para vaticinar se o produto é bom ou não.

Antes o vinho popular era produzido junto com outros produtos voltados para o consumo interno, nada mais que um alimento líquido, presente nas mesas familiares, o que lhe dava um ar de coisa rural, simples, tranquilo como a massa e o azeite, como os embutidos e o queijo que se produzia em casa. Note-se que a população rural era maior do que a urbana nos países do Ocidente, o que significa dizer que até os anos 1970 dificilmente alguém que morava na cidade não tinha um parente ou uma propriedade produtiva no campo. Isso era certeza nos países das penínsulas Ibérica e Itálica, na França, Suíça, Holanda, Bélgica, Alemanha.

maceraObviamente, houve uma corte no passado, que não seguia esta lógica popular, o que fazia com que o habitante deste ou daquele lugar fosse de primeira ou segunda categoria. Se era nobre, militar ou aristocrata, havia uma sofisticação na mesa, um produto divino, uma roupagem e um tratamento cuidadoso. Se era povo do campo ou da cidade, era consumidor de outras coisas, quase sempre de qualidade inferior aos consumidos pela corte. Para não ir muito longe, assim como a gastronomia, o vinho da corte chegou à mesa da burguesia a partir da Revolução Francesa pelos anos que a seguiam.

IMG_1079Quem bebe este vinho do presente é uma pessoa diferente, eventualmente sem qualquer relação hereditária com os consumidores de antão, por mais que aqueles possam ter influenciado estes.

2ª Parte – Ruim e Boa – Hoje são seguidos princípios enológicos muito mais precisos do que antes dos anos 1980, quando a revolução enológica Peynot invadiu a produção, com suas inovações técnicas, com as medidas de açúcar potencial da uva, com sua micro-oxigenação, com a indução da segunda fermentação (malolática) antes do descanso em madeira, aço ou garrafa. Questões como as de terroir, saíram do plano místico e puderam ser perfeitamente decupadas, dando um verdadeiro e científico lugar àquilo que é de fato específico a cada vinho – pois as condições ideais de clima + solo + água + uva + técnica de produção foram destrinchadas suficientemente para se reproduzirem quase à vontade por todo o Novo Mundo, e mesmo por boa parte do Velho Mundo, que não se atrevia a tanto. Hoje vinhos bordaleses, tão bons quanto os de Bordeaux, são produzidos na Califórnia, na Austrália, na Toscana e em tantos outros lugares – incluindo o Brasil –, entendendo-se por bom aquilo que os vinhos de Bordeaux atingiram em matéria de qualidade.

No entanto, as velhas técnicas, pela observação dos produtores, pelo gosto dos consumidores, consolidaram uma escala de confiabilidade e prazer traduzida por alguns rótulos místicos que ganharam corpo com o passar dos anos, tornando-se referências de tudo o que veio depois. As técnicas modernas se apropriaram da estética (Latu sensu) dos vinhos antigos, ou seja, foram atrás de suas uvas, de sua extração, de sua madeira de guarda, de seu tempo de encorpar e conseguiram imitá-los.

Neste contexto, voltamos ao nosso ponto – as Denominações de Origem. Elas foram e continuam sendo, em parte, um guia de quHautalidade, apesar de não serem mais suficientes e unanimemente aceitas como tal (será que um dia foram?).
Afinal Haut Brion, um vinho de qualidade máxima de Bordeaux, já começava a tornar-se referência na Inglaterra no início do século XVII, como atesta correspondência entre dois amantes da bebida na primeira década dos anos 1600. Haut Brion para estes ingleses. Logo depois, por influência direta dos comerciantes holandeses, tornaram-se também Lafite, Latour e Margaux para outros bebedores de vinho da Corte inglesa.

Para a França – cuja aristocracia da Borgonha tinha a supremacia mais que centenária – os grandes vinhos eram os da região, particularmente entre Beaune e Dijon, com prevalência para os da Côte de Nuits. Na Itália da pré-reunificação os únicos vinhos produzidos no país eram da região do Langhe piemontês, preferencialmente de Barolo.

Desde os tempos da Império Grego associava-se os vinhos de uma região à qualidade. Ah, aquele vinho é da Enotria (atual Itália), para além de Roma. Ah, aquele vinho Enotriaé de Cahor e é feito com Cot (Malbec).

Ou seja, a Denominação de Origem foi criada para garantir qualidade e, com isso, eternizar um mercado para os vinhos produzidos na região reconhecida. Evidentemente, com o crescimento do mercado, com a internacionalização dos consumidores, isso se tornou mais difícil, até porque muitos deles decepcionavam e tantos deles exigiam uma verdadeira enciclopédia para localizá-los.

Vamos continuar o assunto? Anuncio para o próximo artigo mais do mesmo: partes ruins e boas.

Uma viúva deliciosa

Escrevi para a revista VIV de DEZEMBRO – 2007 um artiguinho sobre a Veuve Clicquot. Tratava-se de revista dirigida a gente com mais de dez lustros.

Faz tempo, mas tenho a reparar apenas os exemplos brasileiros que cresceram muito ou eu cresci e agora sei que são muito mais e mais importantes.

Tantos anos depois, me dou conta que a Veuve Clicquot podia bem ser chamada também como a Viuva Publicitária, tanto soube inovar, conquistar públicos novos, descobrir-se popular e atual. Copio algumas imagens, a grande maioria do século XX.

 

Por Breno Raigorodsky*

 

Nós, leitores desta revista, merecemos mais prazer e menos compromisso, por tudo que já cuidamos de nossos pais e de nossos filhos, por tudo que fomos responsáveis socialmente, por tudo que tentamos fazer para melhorar a qualidade de vida de nossos pares etc.

Merecemos sim, todos nós, o prazer de fechar o ano com chave de ouro.

Por exemplo, podemos levar uma viúva maravilhosa para casa, primeiro para a mesa e quem sabe para tantos outros cômodos mais íntimos.

Sim, uma viúva tão especial que dificilmente se leva a um restaurante, seja por causar inveja incontrolável a outros comensais, seja porque está acima da qualidade de atendimento de 99% dos lugares para os quais você ou eu poderíamos levá-la. Seja ainda porque você não quer se sentir obrigado a compartilhar a experiência com toda a malta.

Veuve Clicquot, Viúva Clicquot – Madame Clicq para os mais íntimos – é a divina borbulhança que o homem mantém renovável, mostrando que a sustentabilidade no hedonismo existe há, ao menos, 232 anos, muito antes dos economistas começarem a discutir o termo “desenvolvimento sustentável”.

Tecnicamente falando, ela não é mais do que um champanhe, nome insuficientemente nobre para classificá-la, mas voilà.

Tecnicamente falando, ela vem sendo refeita com as uvas de todos os champanhes, ou seja, Pinot noire, Pinot meunier e Chardonnay, excetuando aquelas feitas exclusivamente de uva Chardonnay, ditas Blanc-de-Blanc. Ela é uma das ocupantes, no nascedouro, das superfícies consagradas ao plantio da uva, França afora, de acordo com a lei consagrada à viticultura de 22 de julho de 1927. Reserva-se 3% de toda a área de plantio viti-vinífero do país aos produtores do vinho conhecido pelo nome exclusivo de Champagne, nos arredores da Montanha de Reims, acima de Dijon, direção nordeste de quem sai de Paris, na verdade um planalto que se inclina delicadamente em direção aos vales de la Vesle e Ardre.

Madame Clicq rose é assim como as outras, só que sua Pinot Noir entra no liquidificador com mais de 50%, o que lhe dá este tom de rosa pálido, que a cor que Madame criou nos idos do fim do século 18, depois de um porre daqueles, dizem. E não pense que toda rosé é como ela, porque a cor pode ser conseguida por uvas tintas menos nobres.

Você vai me dizer, mas há tantas outras que jamais casadas foram, quanto mais viúvas… Outras, prontinhas para o consumo, no sentido bíblico do conhecimento. Ed é vero, são tantas produzidas por lá, no mínimo tão boas quanto aquela.

Seus nomes borbulham na boca de todos nós e pesam em nossos bolsos, a começar com as Möet Chandon, Taittinger, Gosset, Bollinger, Cristal e Pol Roger. Essas e tantas outras rivalizam no preço e muitas vezes até no charme, desculpem os fetichistas de plantão.

Pior do que isso, no afã de imitá-las, o mundo engarrafa produtos de qualidade quase tão boa, como os espumantes da Franciacorta italiana que são feitas com as uvas e o método idênticos e – pasmem – com qualidade suficiente para confundir muitos especialistas em testes cegos.

Furos muito abaixo, com a aparência garrafal de um champanhe – incluindo aí aquela amarração de metal que impede a rolha explodir a um indesejável sacolejar mais intenso – com a nítida intenção de confundir o comprador ingênuo, o mundo produz arremedos em todos os sentidos. Os mais bem sucedidos atualmente são os Cavas catalães e os Prosecco vênetos, mas há para todos os gostos, origens e bolsos, líquidos engarrafados, gaseificados e com aparência de champanhe.

Furos acima, a região da viúva domina amplamente os produtos “petillant”, como dizem os franceses. Estes seguem um ritual centenário, que mistura a quantidade de cada uva que entra na mistura (l’assemblage de cépages), na mistura de produtos de diferentes terrenos produtivos (l’assemblage de crus) e na mistura de produtos de anos diferentes. É uma mistura digna de um festival hippie onde ninguém sabe de quem é quem. E ainda mais, cada tipo pode se misturar com uma certa quantidade rigorosamente determinada de açúcar, para ganhar a classificação de natural ou extra-brut, brut e demi-sec.

Mais ou menos, produtores do Novo e do Velho Mundo seguem a receita francesa na quantidade de açúcar adicionado para produzir a segunda fermentação. Menos do que mais, seguem também o demorado e custoso processo de fazer na garrafa, virando cada uma delas ¼ de rotação ao dia, até que ela se dê. Mais simples e econômico é provocar esta segunda fermentação ainda nas cubas de fermentação, que transformam a massa de uvas em vinho.

E se você anda pouco exigente e está longe de ligar para viúvas de nome difícil, se seus parentes e amigos não estão nem aí para essas coisas, pode ser extremamente excitante descobrir o espírito cívico nacional nos espumantes do Vale do Vinhedo que andam a surpreender na qualidade… e no preço, porque não são tão baratinhos assim!

Os grandes produtores do Vale do Vinhedo usam copiar todas as fórmulas européias e fazem isso razoavelmente bem, a ponto de ser o espumante o mais respeitado produto da região, enologicamente falando. Tanto que vários produtores estrangeiros escolheram em sua plataforma de produção o Brasil para o espumante e Argentina para o tinto.

O exemplo mais notório é da multinacional Möet Chandon, que faz sua linha Excelence brut normal e rosada vinhos de qualidade internacional. A qualidade do Prosecco e do Espumante Brut pelo método tradicional (champagnoise), da Salton, anda deixando rugas nas testas dos exportadores italianos, que olham com preocupação o nascimento de um concorrente. A Miolo, a Aurora, a Almaden Remi-Martin, Valduga, Don Laurindo e mesmo outros tantos fazem surpreendentemente direitinho, como é o caso da linha Décima da Piagentini.

Pronto, acabou o espaço para fazer esta incursão infindável no mundo da bebida mais charmosa e festeira, a partir de seu ícone máximo em charme e benefício.

Viúvas, virgens, com safra datada ou mistura de colheitas, rosadas ou brancas, mais ou menos secas, a champanhe está aí para servir de memória degustativa de todo bom fim de ano desde que o prazer do gosto se tornou necessidade.

 

Breno Raigorodsky, 58 anos, filósofo, publicitário, embaixador do
vinho e da comida, escreve regularmente sobre turismo, enologia e
gastronomia.