Chile – Um passo adiante no marketing do vinho

chile-mapa-produtor0001O Chile é aquele país que delimita o nosso continente no Pacífico, aquela tirinha de terra entre o Oceano Pacífico e a Cordilheira dos Andes, que tem uma capital linda e civilizada, que tem geleiras, vulcões e desertos, onde a praga Filoxera jamais se deu bem.

O Chile é aquele país que aponta para o Brasil como se fosse sua extensão, quando se trata de vinho, com a autoridade de quem vendeu entre nós 28 milhões de litros,  ocupando pela primeira vez mais de 40% dos vinhos importados por nós, seja em volume, seja em valor.

Esta posição não se dá ao acaso nem por uma única razão, mas por um conjunto de fatores:

  • Persistência no acreditar que este mercado um dia desses vai fluir. Tanto que estão investindo em Brasil desde as garrafinhas bojudas feitas na Alemanha, que marcaram  – Undurraga e Concha Y Toro na cabeça – a primeira leva de seus vinhos de exportação, lá pelos idos dos anos 1970
  • Maturidade produtiva atingida, com o ciclo de reprodução do capital e taxa de lucro estável nos últimos 10 anos
  • Diversidade de targets que cruza diagonalmente todos os quadrantes etários e de rendimento. Em outras palavras, tem vinho chileno para todo tamanho de bolso, todo nível de exigência de qualidade, todo pendor que vai do mais tradicional até o mais novidadeiro.

Compete com galhardia entre os mais simples e imediatos, ganha espaço com seus peões nos tabuleiros argentinos e italianos, disputa com ótimas ferramentas os mais altos postos de qualidade com franceses, norte-americanos, espanhóis, italianos e quem vier. Pega onda da informalidade com os australianos, mas não deixa de bicar seguidamente as tradições europeias.

As experiências com o marketing apontam para a criação periódica de fatos novos, dando um belo exemplo de como estabelecer o perfil de cada um de seus produtos, como colar confiabilidade aos seus rótulos, como aproveitar suas características para espalhar-se, diversificar-se, traduzir-se para diversos canais ao mesmo tempo.

propriedade Cesar Adames
propriedade Cesar Adames

TopwinemakersNum ano, trouxe o Pedro Parra, o único Master of Wine da América Latina, doutor em solo, para nos brindar com a quase totalidade dos grandes e imperdíveis vinhos de lá, tendo como pontos mais impressionantes o Aristos, o Clos de Apalta e o gewurzstraminer da Casa Marin.

No seguinte tratou de brincar com uvas, produtores e enólogos, mostrando ao mundo que nem só de grandes e consagrados o Chile se fazia em vinho, mas também de butiques e experimentalismo. Chamou a atenção da crítica a reunião de cinco enólogos + cinco enólogas, que criaram dois produtos gerados por 10 vinícolas, cada uma participando do produto final com 20% de cada garrafa. Os homens fizeram um vinho pretensamente mais masculino, enquanto elas um mais feminino. Ao menos geraram notícia e muita degustação, tirando o foco dos terroir e das cepas usadas, para concentrar a informação no produto de confrades produtores e vinhateiros!

Dois anos atrás nos apareceu com um grupo de pequenos produtores ditos independentes, clonando de certo modo as feiras de produtores independentes que se dá semestralmente em Paris e que, de fato, reúne aqueles que não estão de algum modo atrelados às grandes corporações do mundo do vinho… Corporações, diga-se de passagem, cada vez mais gulosas, que abarcam tudo que tem de bom pela frente, no estilo LVMH.

Agora trouxeram a diversidade num sentido mais norte-sul, sempre apresentando uma nova imagem do Chile. Vinhos de lugares quase esquecidos nos folders do mundo, exceção feita a produtos literários sempre atualizados, destaque primeiro para o Atlas dos ingleses Hugh e Jancis, que – sabiamente – pega um especialista local para ajudar (no caso do Brasil, quem faz este trabalho é o J.O.Amarante).

Ranco-Sauvignon-Blanc-2013De cara, um produto do nosso – quase tão nosso quanto deles – Mario Geisse: um sauvignon blanc para ser registrado no mais profundo de nossas memórias gustativas. De uma mineralidade, de uma fruta nova, nem Sancèrre, muito menos Nova Zelandia ou Vale Casablanca. Um vinho de muita intensidade, diferente, um vinho sem concessões.

A ele se contrapôs dois chardonnays, um de produção mínima, coisa de garagem, o Pandolfi Price, do Vale Itata, o outro um Tabalí, sempre muito reflexivo, volumoso, como costumam ser o produtos desta casa.

Mudando de cor, um banho de Itata, com País (San Pedro), Cinsault ( De Martino e Montes) e Carignan (Rogue Vine), demostrando na taça que se pode fazer vinho com outras uvas por aqui, abaixo do Equador.  E que se pode se fazer ótimos produtos fora dos esquadros, dos vales que viraram figurinhas carimbadas.

Mas mesmo com as carimbadas, é possível diferenças importantes. Saindo de Leyda e Casa Marin, lá no Atacama e Huasco, nos apresentaram um Pinot Noir (Ventisquero) de cair o queixo e calar a boca de gente como eu, que vive falando gatos e sapatos contra os pinotzinhos, cheio de groselha que se faz por aí, como se fosse sucos um tanto alcoolizados, como se fossem parentes diretos daqueles sub-produtos, cujo exemplo mais conhecido é o Beaujolais Nouveau.

É verdade que para chegar até aí, a Ventisquero foi subindo, subindo, subindo, até atingir o cume dos preços… Mas aí é um outro lado da problemática, que não terá aqui discutida a solucionática!

Santa CarolinA degustação fechou com uma das mais carimbadas entre todas que passeiam pelo mercado brasileiro e que – talvez também por isso mesmo – surpreendeu tanto quem estivesse por perto:  nada menos do que um Cabernet Sauvignon (Santa Carolina) diretamente da Cachapoal, sem rostinho de compota de fruta, sem fumacinha, sem gosto de simplicidade chilena. Vinho que resgata o que há de potencial tânico/gastronômico da grande uva bordalesa. A madeira, no ponto certo, uma boca e um nariz que não apresentam pimentão de cor alguma. Vinhaço. Pena que foram produzidas apenas 2000 garrafas, já todas vendidas.

A função destes vinhos? Mostrar que o Chile está focado em trabalhar diversidade e potencial de surpreender nas uvas, no fazer, no experimentar, o que é muita coisa no mundo do vinho.

 
 
 
 
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