A comida e a sociedade.

Longe de ser o esboço de uma tese qualquer, este artigo se trata muito mais de uma reflexão de fim de tarde, não muito mais do que isso, totalmente descartável, não vale mais do que meia hora inicial de um velho jogo de futebol sem graça, desses que a pandemia está nos dando a oportunidade de ver de novo. Mas é fato. O mundo já sabia, em 1789, que havia uma farra gastronômica infindável entre as cortes do Velho Continente e suas imitações Novo Mundo afora.

Isso se conta abundantemente através de longa literatura, seja aquela francesa contemporânea, via penas como as de Balzac, seja como outros mais recentes, como a de Proust, só para citar dois grandes da história da escrita.

Os romanos e antes deles os gregos e antes deles os chineses, persas, babilônicos e outros povos bíblicos, já faziam festas exclusivas e privadas entre os bacanas, ou seja, entre os que frequentavam os bacanais, poderosos da política, da religião e das armas, onde se servia iguarias de mesa e cama.

A plebe, quase sempre escrava, estava lá para servir e depois documentar em casa o que e como aquela gente comia.

Desde sempre a imagem de poder político esteve ligado à fartura e a diversidade, elementos que só foram coletivos em sociedades não diferenciadas, onde a propriedade nunca deixou de ser comum à todos, sem distinção de qualquer tipo, a não ser aqueles privilégios consentidos aos sábios da aldeia, detentores das experiências anteriores, capazes de ditar regras aceitas por aquela comunidade.

Sexo e comida, regrados por catálogos de comportamento, fizeram de povos nômades como os judeus no deserto, rejeitarem o desconhecido, protegerem-se dos desejos do estômago e da genitália, quando em contato com outros povos e costumes.

Impuros tornaram-se aqueles deliciosos momentos de prazer, que traziam consequências indesejáveis, seja num mal que se esvai pela fossa, seja em barrigas que carregavam reproduções nada desejadas.

Ao contrário, estes mesmos caminhavam sem regras no triângulo formado pelos TOP 5% da pirâmide social de todos estes lugares.

O que comiam os frequentadores das coberturas da sociedade, enquanto olhavam de boca cheia o povo trabalhar?

De tudo que poderia ser transformado em iguaria pelos cozinheiros de qualidade, muitas vezes disputados a tapas entre os mais poderosos.

Tantos são os mitos que cercam estas iguarias, desde que se deu posse à propriedade das condições de preparar alimento, desde a posse da terra até o monopólio do moinho de trigo, desde o desvio do curso de rios para privilegiar este ou aquele poderoso até a inacessibilidade dos menos favorecidos a certos produtos que jamais serviram às classes trabalhadoras.

São tantos os exemplos.

A Revolução Francesa foi responsável pela promiscuidade positiva e desejada entre classes, na medida em que derrubou do altar uma parcela dos poderosos, aqueles que detinham a propriedade da terra e que só se mantinham no casulo por conta dos títulos de nobreza que deveriam querer dizer riqueza de antão, que agora só se mantinham às custas de impostos cada vez maiores. Deveriam ser uma forma plena de conteúdo, mas tinham deixado de ser. Com dívidas crescentes, os nobres vendiam sua exibição de riqueza em troca de trocados.

Do outro lado do mercado, os burgueses compravam os dante desejados título de nobreza e com eles – muitas vezes – as terras que os justificaram algum dia, pretendendo-se em condições de – agora sim e finalmente – ter acesso àquelas maravilhas decantadas por todos cantos, de como era bom ser poderoso.

Ou então, as terras tornaram-se minifúndios, terras que passaram a pertencer a quem nelas trabalhavam, como ocorreu com as propriedades dos grandes da igreja católica, particularmente em propriedades da Borgonha, que se tornou símbolo da defesa do conhecimento popular, seja na comida, seja no vinho.

É óbvio que não se chegou impunemente ao fim do século XIX, do ponto de vista dos privilégios. Estes vinham sendo questionados por tantas questões, mas nesta diversidade, tudo confluía, tudo se representava na mesa.

Até porque, os nobres destituídos de sua capacidade de gerar riqueza livravam-se de seus melhores funcionários, os cozinheiros que, sem trabalho, inventaram esta instituição tão conhecida por nós chamada “restaurante”, onde puderam expressar aos comuns – na medida que seu dinheiro era capaz de representar o fausto da Corte – o que se comia e como se comia entre os ricos.     

3 comentários em “A comida e a sociedade.

  1. Tirando o 1o parágrafo daquela justificativa cheia de dedos metida a educada. Artigo duca! Você podia é fazer toda uma série nesse feitio: cultura também é grude que alimenta. Ainda tá me devendo o ensaio – O primeiro vinho ou A primeira uva que deixaria Eva molhadinha.

    beijo ________________________________

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